10 anos de Graffiti 76% quadrinhos

 

1995

Em março de 1995 o centenário do personagem Yellow Kid era lembrado pela mídia brasileira. Amigos ligados ao curso de historias em quadrinhos da escola livre Comuna, no bairro Santo Antônio, se juntam ao grupo de grafite Flit, para produzir uma revista de HQ.

As primeiras reuniões, realizadas nas casas dos integrantes, definem a linha editorial da revista, que se propõe a divulgar trabalhos autorais de quadrinistas brasileiros e publicar matérias sobre grafite, música, literatura e artes plásticas. O nome da revista é derivado justamente do título de uma destas sessões e o subtítulo ‘76% quadrinhos’ reflete a percentagem de HQ prevista pela primeira edição.

Em maio é realizada uma festa para alavancar fundos para o projeto. O apoio da gráfica Itacolomi, porém, é determinante para a Graffiti, que aposta num projeto gráfico de qualidade. Nesta época, três integrantes da equipe editorial são presos por realizar um grafite com molde vazado no muro de um colégio de Belo Horizonte. O episódio, sem maiores consequências, contribui para afirmar o estilo underground da publicação.

Em dezembro, finalmente, a Graffiti zero é lançada no Cine Imaginário. O evento, que traz shows das bandas Elétrica, Chemako e Baratas Tontas, é um discreto sucesso e contribui para estimular os editores a continuar.

1996

A Graffiti começa a ser distribuída a mão em Belo Horizonte e outras cidades. O retorno da venda é escasso mas, com o apoio de uma pequena empresa que se oferece para captar recursos, botecos dos bairros Santo Antônio e Serra, frequentados pelo grupo, tornam-se anunciantes.


Em maio sai a Graffiti 1, que conta com um encarte, o Inserto, dedicado à vida cultural de BH. Uma folha de seda como página de abertura é a outra novidade. Destaque da edição, a entrevista com o músico Tom Zé inaugura série dedicada a autores da MPB. Em ocasião do lançamento é realizada exposição no extinto Cine Nazaré e festa no Teatro Universitário. Os principais diários de Belo Horizonte noticiam os eventos.

Apesar da qualidade gráfica da edição, os recursos continuam exíguos. As festas de lançamento constituemo principal meio de renda e divulgação da revista. A parceria com publicações independentes de Rio e São Paulo ocasiona lançamentos nestas cidades.

Em dezembro sai a Graffiti 2. O Inserto passa a ser publicado em formato poster. Jards Macalé, entrevistado nesta edição, participa do lançamento com show no Elite, tradicional danceteria da capital mineira.

1997

A revista consegue apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e capta recursos junto a gráficas e empresas da cidade. No mesmo ano a revista apóia a fundação do Estúdio HQ, que aglutina produtores de quadrinhos da cidade, além de lançar o site Arromba.

A Graffiti 3 sai em ocasião da III Bienal Internacional de Histórias em quadrinhos. Após duas edições realizadas no Rio de Janeiro, o evento chega a Belo Horizonte e contribui para fomentar a já intensa produção local. Na Serrarla Souza Pinto, as obras publicadas na Graffiti integram a exposição 100 anos do Quadrinho Mineiro.

O lançamento da revista ocorre em outubro no Mercado da Lagoinha. A forte chuva não estraga a festa, que já é marca registrada da Graffiti. Os grupos O Grivo e Casa d’Àgua se apresentam. Alguns convidados da Bienal participam da festa.

Esta edição da Graffiti, que traz uma entrevista com Itamar Assumpção, será premiada, no ano seguinte, com o troféu HQ Mix pelo projeto gráfico. A premiação, que acontece todo ano em São Paulo, é considerada a principal do gênero na América Latina.

1998

Apesar de dificuldades com a distribuição, realizada manualmente, a Graffiti continua a circular pelas bancas de Belo Horizonte, Rio e São Paulo. A revista consolida sua linha editorial. A pauta de cada número, a seleção das histórias e as imagens das capas são decisões tomadas pelos membros da redação durante discussões animadas.

Na Graffiti 4 aparecem as primeiras páginas em cor, com histórias assinadas por Valf e por Fabiano Barroso e Fernando Rabelo. A revista continua série musical com Arrigo Barnabé, e realiza interessante entrevista com o quadrinista argentino Muñoz, mestre do preto e branco radicado na Itália. A tradicional festa de lançamento é realizada em novembro na Faculdade de Engenharia da UFMG.

Como no ano anterior, esta edição também é premiada com o HQ Mix pelo projeto gráfico.

No mesmo ano editores da Graffiti promovem, junto ao Estúdio HQ, a III BHQ, evento belorizontino de quadrinhos que alcança, com esta edição, dimensão internacional. A revista participa da programação do Centro de Cultura Belo Horizonte com uma exposição da atividade de quadrinista do artísta plastico Marcos Coelho Benjamin, hóspede da Graffiti 3.

1999

Em seu quinto ano a revista alcança certa maturidade: acabam os erros recorrentes de paginação e de ortografia em histórias e matérias.

Em junho a Graffiti 5 é lançada com festa no Brasil Palace Hotel, no centro da cidade. O som mecânico dos DJ´s Rafael e Malafa torna-se atração nos lançamentos.

A revista apresenta nesta edição entrevista com os sambistas Nelson Sargento, Walter Alfaiate e Wilson Moreira, além de matéria sobre o quadrinista Luiz Gê e reportagem da Bienal de Cuba, assinada pelo cartunista Cau Gomez, que participa da revista também com uma HQ. O Inserto, publicado pela última vez, entrevista o cineasta inglês Peter Greenaway.

Ainda neste ano a revista é homenageada com grande exposição no I Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em outubro no Centro Cultural da UFMG, em Belo Horizonte.

Mais uma vez a revista conquista o troféu HQ Mix pelo projeto gráfico, realizado até agora por Marilá Dardot. Esta edição vence também o premio inédito de melhor Revista Mix. A Graffiti 5 é dedicada ao amigo e artista plástico Pedro Moraleida, falecido neste ano.

2000

Junto à virada do século a publicação da Graffiti 6 marca uma virada na história da revista. A revista passa a ser impressa em papel couchê e o conselho editorial se firma em grupo de cinco pessoas: Fabiano Barroso, Marcos Malafaia, Rafael Soares, Pablo Pires e Piero Bagnariol, que continuam a editar e coordenar a revista até hoje.

Pela primeira vez uma edição da Graffiti è caracterizada, mesmo que acidentalmente, por um tema: música. Além das imagens das capas, de uma imagem inedita de Pedro Moraleida e de duas histórias baseadas em composições musicais, a revista apresenta uma rara entrevista com Hermeto Pascoal, a última da série dedicada aos autores da MPB.

2001

Ano atípico na trajetória da revista: pela primeira vez são lançadas três edições.

A Graffiti 7 - edição especial, T.R.E.I.N., publicada em março com o sub-título 100% quadrinhos, apresenta 11 histórias organizadas como um trem: da locomotiva ao último vagão. Os quadrinistas realizaram uma brincadeira discreta: alguns dos personagens, como o cobrador, aparecem em diversos vagões/histórias.
O lançamento foi no Cine Belas Artes. Na ocasião, quadrinistas e grafiteiros convidados realizaram um painel ao vivo representando um vagão de trem nas paredes do cinema.

A Graffiti 8, lançada em agosto no Reciclo, teve o barroco como tema e foi publicada com capas diferentes: uma mais próxima das HQ e uma em sintonia com as artes plásticas. O número traz uma entrevista com um lavrador do norte de Minas Gerais, inaugurando série de matérias dedicadas a grandes personagens anônimos.

A Graffiti 9 reúne as melhores histórias publicadas em 6 anos de atividade da revista, com correções e acréscimos. Lançada em outubro durante o II Festival Internacional de Quadrinhos, esta edição reuniu ainda todas as entrevistas da série dedicada aos autores da MPB.

2002

A partir de 2002 a Graffiti passa a ser publicada com apoio do Fundo Cultural da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Em consideração a este apoio, os editores se voltam para temas sociais que contemplem espaços de exclusão na cidade. Além dos autores que já publicam com certa regularidade na revista a redação procurou, nestes números, abrir espaço para novos quadrinistas e para trabalhos experimentais.

A Graffiti 10 tem os presídios como tema, e inaugura trilogia que trata de presídios, manicômios e rua. Junto ao primeiro número da trilogia é realizada uma oficina de quadrinhos com internos do Centro de Internação Provisória do adolescente – CEIP, do bairro Horto.

Lançada em setembro na livraria Travessa, na Savassi, a Graffiti 10 apresentou uma entrevista com um ex-traficante e ex-presidiário e outra com o chefe de segurança do Centro de Internação do Adolescente de Belo Horizonte. Os autores convidados a participar desta edição trabalharam livremente a partir do tema proposto. Entre as 9 histórias publicadas duas tratam do massacre do Carandiru - uma delas, de autoria de Rogério Marcus (desenhos) e Erick Azevedo (roteiros).

2003

O tema proposto para a Graffiti 11, manicômios, mexeu com os integrantes e colaboradores da publicação. Em discussão preliminar sobre o tema, chegou-se à conclusão que todos tinham certa familiaridade com o assunto.

Para o trabalho de campo foi realizada oficina de quadrinhos no Centro de Referência dos usuàrios da Saúde Mental – CERSAM, do bairro São Paulo. As obras realizadas surpreenderam pela expressividade e algumas das pinturas e das histórias realizadas pelos participantes foram publicadas nas capas e na seda da revista.

Um dos usuários, preocupado com a criação de objetos perfeitos, foi o entrevistado da edição, que teve ainda extratos de uma entrevista sobre psicofarmacoterapía.
Dentre os quadrinhos se destacam ‘Casa de Orates’, de Paulo Barbosa e ‘Eu fui um erro seu’, poema visual
de Marcos Malafaia. O quadrinista argentino Lucas Nine também participou desta edição.

A Graffiti 11 foi lançada em setembro durante o Salão do Livro de Belo Horizonte. Os usuários do CERSAM São Paulo prestigiaram o evento com sua presença.

2004

A Graffiti 12 contempla a rua e encerra trilogia
dedicada aos espaços de exclusão.

Pela abrangência do tema este número facilitou o trabalho dos quadrinistas, que puderam se expressar com bastante liberdade. A referência aos graffiti apareceu naturalmente no contexto da edição, que traz entrevista com Seta, pseudônimo de um pichador de BH.

Entre as histórias se destacam trabalhos de Eloar Guazzelli, que passa a colaborar com a revista, e o registro fotográfico de Belo Horizonte realizado por Flexman Newgate. A revista traz ainda uma HQ de J. C. Millo, autor cubano que, com alguma dificuldade, conseguiu participar desta edição.

A revista foi lançada em outubro no Lapa, no Bairro Santa Efigênia. Poucas semanas depois a Graffiti promoveu também o lançamento do livro Guia Ilustrado de Graffti e Quadrinhos, que registra a história e a evolução destas duas linguagens da antiguidade até hoje. O Guia constitui também em registro inédito da produção de graffiti em Belo Horizonte. O lançamento foi realizado em novembro no Museu de Arte da Pampulha

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