CAOS
SAUDÁVEL
A proposta independente é estar fora do sistema. É complicada
a sobrevivência... você segue ou você desiste. Eu sou
compositor, tenho que carregar meus discos, minha casinha nas costas.
Não interessa se eu não vou no Faustão, no Fantástico.
Tem um dedicar a isso, senão não adianta. No Brasil é
assim... Mas nos Estados Unidos, os pretos se juntaram e fizeram a Motown
quando ficou difícil para eles. É diferente lá, não
tem mistura, aqui tem. Não estou falando que o Itamar está
fora porque é preto, não tem nada a ver. Estou fora porque
quero estar, e falando isso o pessoal estranha. Eu não quero essa
coisa aí de ficar vendendo um milhão de discos... Pra justificar
tanta venda você tem que dar o retorno. E é muito desgastante.
E a minha música não é para isso. Eu fico vendo o
seguinte: eu gosto de tocar para 500 mil pessoas, mas 500 de cada vez.
Aí é legal. Se você toca para 50, 60 mil pessoas,
eles não vão ouvir aquele bandolim sutil pra cacete. Epa!
onde eu vou entrar agora? Pra onde eu vou? Sei lá, rádio
não toca... Tá, tem uma rádio que toca a minha música.
Eu já estou muito avançado culturalmente, artisticamente,
e esse é o problema do povo não receber sua cultura. Não
é mais Gilberto Gil, não é mais Milton Nascimento,
é isso, uma coisa fora, uma outra coisa que não é
um movimento, é muito individual. Quando eu entendi que o Cartola
ficou 25 anos lavando carros, é por causa disso, tem que estar
no mercado. Então o cara vai fazer outra coisa. Eu não vou
fazer outra coisa. Nem sair do Brasil. Claro que eu estou no país
mais difícil do mundo, como os caras dizem na Alemanha, mas eu
digo que é o Brasil. Aqui é qualquer coisa, aceitam qualquer
coisa porque é imposto qualquer coisa. Nós que produzimos
a música mais rica do mundo, o povo não recebe. É
o caos, mas saudável. Essa mistureba toda.
PEGA
PRA CAPAR
Aqui entre nós três, como é que pode ter racismo?
Com que cara vocês vão falar pra mim de racismo? Não
tem jeito. Assim como se eu falar que vocês são brancos.
Onde? Como? Eu sei que branco é europeu, é alemão,
eu vi lá. Aquilo é que é branco. E que não
mistura nem com suíço, do lado. Não gostam do outro.
E isso acabou aqui no Brasil. A onda é essa. Partimos pra uma coisa
nova. Lá é tudo velho, acabou. Não tem pra onde ir
no sentido humano. Os caras nem afetividade mais tem, só cabeça.
A convivência pesou entre raças. O peso do mundo sempre foi
esse. Leva o escravo porque tem que levar, a mão de obra é
zero. A economia é que manda. Mas aí muda pra indústria
e a escravidão não precisa mais. É um pau, um pega
pra capar porque não acabou a escravidão. Lá, o espacinho
deste tamanho. Então pegam uma caravela e saem andando. E vem dar
aqui no Brasil. E os índios estavam aqui viajandão, os caras
chegam e: não! pára com isso! acabou essa
história! cês tão muito sem roupa demais, Tupã
não tem nada a ver... que é isso aí? Vão parar
com essa zona... Até botarem fogo. Botar fogo é isso, é
essa ignorância cultural. O não respeito. É disso
que se trata. Minhas filhas nunca farão isso. Se fizerem, eu pego
elas e queimo em praça pública.
FEIJOADA
Olha bem, nós somos tão novos que eu não sou uma
mistura. Nasci em 49. Se andar um pouquinho para trás estamos em
1800, em plena escravidão. Aí que eu digo que é novidade.
Parece que a gente tem 3000 anos. Tem 500 e olhe lá. É difícil
os caras entenderem que meu vínculo com a África é
maior que com o Brasil. A minha cultura ainda é africana. Por exemplo,
hoje comi feijoada. Fico muito tempo sem comer, bebo, fico maus - como
feijoada. Porquê? Porque os caras inventaram isso. Os escravos precisavam
comer uma coisa forte pra segurar o bagulho. Inventaram a feijoada. Virou
prato. E eu sou casado com uma descendente de italiano, minhas filhas
são mulatas. Aí já é Brasil. Elas são
produto de duas culturas já. Isso é brasileiro. Eu não.
Lá em casa não tem branco, não tem mulato. É
tudo preto. Meu irmão casou com uma branca e tem filho mulato.
Isso que os caras reclamam, falam branqueamento. Isso não é
branqueamento. Eu não vou casar com preto para manter uma África
no Brasil. Isso não existe, Brasil não é África.
Brasil é uma mistura desse negócio. Eu como macarronada
com feijoada. Convivo com descendentes de italiano que sabem fazer isso.
E que os pretos sabem fazer? Música. É isso que eu faço.
Sou especialista nisso. Por tradição.
ESSE
É O NOME
E o nome Itamar. Meu avô que escolheu. Quando foi batizar lá
na igreja, o padre falou que não porque era nome de bicho: escolham
outro, José, João... Aí meu pai falou: não,
é Itamar. Ficou Itamar. Hoje, o que eu vejo é que naquele
momento o padre falou o seguinte: olha, isso daí é muçulmano.
Itamar é muçulmano. É Maomé, então
não é legal. Mas ele falou: isso aí é nome
de bicho. Mas não explicou o que era. Aqui, recebe o nome do patrão
- Assumpção é português. Meu nome de africano
eu nem sei, nem me preocupo com isso. Não sou japonês, japonês
sabe. Se for Nakamoto, é tudo Nakamoto, todo Nakamoto é
parente. Mas o pessoal fala: ah, tem aquele cara lá, o Assumpção.
Mas ele é branco, não é parente seu? Não tem
a ver? Não entende culturalmente isso que eu tô falando.
Eu carrego ainda o nome do senhor. Isso é Brasil, o negócio
é rico. E faço questão de carregar meu nome. Esse
é o nome, entende? Assumpção com p.
ME
ENSINA?
Meus amigos de infância falam: como é que você virou
isso? Até 14 anos eu nunca dei razão pra se dizer que ia
acontecer. Mas eu acho que é uma outra coisa: o tempo. Eu morava
com meus avós porque falaram: ah, deixa aqui, vou criar... E toda
uma cultura de Igreja Católica. Fiquei no grupo escolar Tietê,
minha avó me colocou com cinco anos no grupo porque meu irmão
tinha sete e ia pro 1° ano. Ela não queria separar os dois.
Aos nove acabou. Eu não podia fazer ginásio, só com
11. Aí fiquei sozinho pela primeira vez. Um ano esperando para
entrar no ginásio. Nesse ano, tive que me virar com o tempo. Nos
primeiros dias foi difícil, chato, todo mundo ia pra escola. Daí
comecei achar o jeito de lidar com o tempo. Eu já me interessava,
queria entrar numa banda pra aprender tocar sopro, pistom. Tinha um cara
que tocava tuba, violão, baixo e eu gostava de baixo, gostava de
violão também. Falei: me ensina a tocar violão? O
cara falou: ah, é fácil, qué vê? Pegou e fez.
Então entendi o que ele falou.
INDEPENDENTE
O pessoal já chega querendo ser independente, independente com
grana, pagando disco e tal. O que eu estou falando é artisticamente.
Sempre procurei independência artística primeiro, foi essa
de não entrar em caminhos fáceis. E agora a independência
financeira. Então, se alguém quiser comprar este peixe que
nunca foi vendido, eu vendo para esse alguém e sou fiel. Sim, porque
meu público sabe que chegou a hora deste negócio. Para mim
se trata de ampliar meu espaço. Mas como? Ora bolas... por exemplo,
agora vou lançar meu disco e tem um clip. Meu
disco eu mesmo já faço, não preciso de gravadora,
pronto. O clip eu ganhei de um amigo. O nome da música é
“Porque Não Pensei Nisso Antes”. Eu não sei
que rolo vai dar na MTV, mas eles vão ficar tocando lá.
É legal que eu vou entrando no mercado devagarinho. A transa é
essa. É justamente divulgar esse trabalho pra essa moçada.
Essa que é a onda da MTV. E muita gente aqui nas periferias vê
MTV. Quem conhece, conhece. Fora isso, o que eu tenho que fazer? Eu tenho
que chegar e seduzir de cara. Não vai pensar muito não.
Acabou a música: ah gostei desse negócio aí. Já
de cara. Pá! Pum! Daí vai lá e vê a sua cultura
onde está. Musical, artística. Dá uma olhada aí
que você vai ver como lá pra trás tá cheio.
TEMPO
Então estou preferindo ver numa cidade um lugar pequeno e falar:
Ah eu quero ficar três semanas aqui. Pronto, é isso, acabou.
Não tô afim mais desse papo de tocar dois dias num lugar
e sair voando pra outro. Tem um tempo pra mostrar meu trabalho que é
imenso, intenso. Eu não sei mais o que eu faço porque é
tudo novidade.
ARRIGO
A transa deveria ser: você ouvir só quem tem talento. Essa
é que é a chatice, você ficar ouvindo quem não
tem talento. Quando falo do Ataulfo, pra que eu vou fazer música?
Pra que precisa? Acontece que a minha música está dando
um passo. Tem o Ataulfo, depois vem o Tropicalismo, pulando umas etapas,
e aí cai eu aqui. Um som assim, só eu que posso fazer isso.
Já não é o Ataulfo, já não é
nem o Gil. Então eu peguei o baixo e fui lá. Daí
olhei pro meu lado e vi um caraibão, um caraíba bom: Arrigo
Barnabé. Descendente de italiano, com aquele som lá de europeu
e tal. Isso é brasileiro. Eu sou descendente de escravo, não
quero saber de notas. Não agüento nota na minha frente. E
aquele cara é nota até debaixo d’água. As partituras...
Tempo tudo composto... Mas mesmo sendo compositor, sem a obrigação
de ser músico, eu gosto de ser músico também. Só
músico. Então fui tocar com o Arrigo pra aprender aquele
negócio. Fui lá e fiz os arranjos pro Arrigo antes do “Beleléu”.
Até que chegou a hora de gravar o “Beleléu”.
Eu vi que se eu não entendesse de Arrigo, que modernidade é
essa sua? A música popular já não é mais Caetano
e Gil. Não é que seja Arrigo e Itamar, mas tem mais esses
caras já. É dose, não é uma música
que você vai dançar, vai curtir com a namorada. O negócio
é ouvir o som. O Ataulfo é doce, eu sei. É tão
difícil uma coisa quanto a outra. Mas isso é a música
brasileira. Da minha música não vai ter jeito de falar mal.
Essa possibilidade não existe. Eu cheguei com o “Beleléu”.
O pessoal pergunta dos novos aqui, que estão surgindo agora. Eu
falo: olha, o que tá, taí. Mas ninguém quer falar
sobre esse assunto. A novidade é essa. A novidade é que
tem um cara que canta Arrigo Barnabé como se cantasse Ataulfo Alves.
Canta, rapaz. Eu
toco Arrigo e canto Arrigo.
VOCÊ
VAI
E a história de ser músico veio quando eu conheci o Mautner.
Fui tocar com ele como músico. E ele: tu compõe? Eu componho.
Mostrei uma musiquinha pra ele. Ele falou: você vai cantar lá
no meu show. Eu falei: não, não quero cantar não.
Quero trabalhar só de músico. Não, você vai,
cê vai, cê vai. Não, não quero. Aí chegou
no meio do show, ele parou, fez aquele discurso dele lá, me jogou
no negócio e saiu fora. E ontem, conheci um cara que me falou o
seguinte: Sabe onde eu te vi? Num show do Equipe com o Jorge Mautner.
O Mautner fazendo discurso pra apresentar você. Eu fui lá
pra ver o Mautner. O cara pensando assim: Puta! Vem um chato aí
e eu querendo ver o Mautner e ele vai largar um chato na minha orelha.
Aí acabou, foi ali.
BOTECO
Nossa cultura é oral também. O pai vai passando as coisas.
A cultura da rua. Vivo em boteco jogando conversa fora. Às vezes
o pessoal fala assim: é o Itamar aí? Porque tem aquela coisa:
pô! mas o cara fica aqui e aqueles caras
com carro, mansões, cinco milhões de discos... Primeiro
acham que ele é besta, não tá com nada. Então
eu falo: não vou sair daqui, não adianta encher meu saco.
Vou ficar quieto no canto que eu quero ficar. Escolhi meu canto. Aí
vai, vai... começam a entender. E o pessoal: você não
pode mudar daqui. Porque não vai ter um Gilberto Gil na sua orelha
assim num boteco, não vai ter um Caetano. Não vai mesmo.
Eu tô aqui no meu boteco com a meninada, jogando truco. A minha
cultura é essa, mas querem que você mude essa cultura. Não
dá. Isso é loucura Então vá morar no Japão
se você está achando ruim.
FUTEBOL
Antes da música eu achava que ia ser jogador de futebol. Eu jogava
atrás, na sobra dos caras ali, armando o jogo. Não sei porque
fui lá pra frente e comecei a gostar de jogar do meio de campo
pra lá. Virei centro-avante. E fazia gol toda hora. Meu irmão
era ponta esquerda e cruzava toda hora. A gente azucrinava a defesa. E
aí passou um técnico lá em Arapongas e falou: tem
um amigo técnico da Portuguesa, você não quer ir pra
lá? Quero! Larguei a escola lá e fui embora. Cheguei no
Canindé, ficou uma semana chovendo pra cacete. No terceiro dia:
epa! tem algo estranho aqui. Eu tinha 18 anos, com 30 já acabou.
Me deu um pavor aquilo. Eu falei: isso não é pra mim. Era
68. Pelé, Rivelino, Gerson. Esses caras é que jogam bola.
Não quero mais ficar aqui. Quando saiu um solzinho lá, fomos
bater bola no campo e eu me arrastando. Porque o tesão dançou.
Eu tinha tesão porque não tinha nenhum compromisso. Peguei
um ônibus e voltei. Me perguntaram: mas porque que você não
ficou? Eu não sabia explicar, não tinha um argumento claro
e tal. Aí comecei a ver que era isso, a longevidade do negócio.
Eu tô com 47 anos, jogar bola com 47 ia ser muito chato.
Que nem Pelé,
ele foi com 15 anos pro Santos. Jogou a vida inteira dele lá, nunca
vi o cara falando: eu quero ficar milionário, ir embora. Ao contrário,
quando os caras quiseram vender, ele não quis. Duas vezes eles
tentaram vender. E ficou até ir embora pro Cosmos, porque no meio
da década de 70 a situação tava preta. O cara foi
campeão do
mundo mas tudo bem. Depois desanimou e foi embora. Resolveu ganhar dinheiro
porque no Santos ele não ganhou. O Santos é que ganhou muito
dinheiro e jogou tudo fora. Mas ele ficou lá jogando, amor puro.
Isso sempre teve nos jogadores antigos.
Os cartolas
são a política, mas a cultura, que não é política,
é o seguinte: nós dois escravos, ele com uma maça,
eu com uma espada. A gente é amigo lá na escola. Aí
falam: ó, não pode ficar os dois aí. E temos que
enfrentar um ao outro. Aquele jogo, aquele boxe lá, aquele futebol
lá, era pro povo. A cultura humana é essa. A política
entra no cartola dono dos escravos. Hoje não pode um matar o outro,
mas é isso que significa. Tem um jogo humano que
tem de sair de alguma forma e tem que ter regras pra sair. E futebol você
pode dizer que tá tendo cada vez mais regras. Tá difícil
pros caras esquentadinhos que batem em juiz. Isso aí não
dá mais. Os caras levam sangue nos olhos. Mas jogavam no gol também.
Pelé jogou no gol. Foi fazer gol e depois foi lá no gol
e catou tudo. Tá louco! Fez mil gols. Não deixou pra ninguém,
ninguém. Isso é brasileiro, não é preto, entendeu?
É esse produto brasileiro que nasce lá pobre e faz a vida
com os pés como eu faço com minhas mãos e minha garganta.
Então Itamar é maldito e marginal, tudo, eles falam tudo
menos isso, sobre isso.
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