Como
começou a mexer com quadrinhos?
Sempre gostei, desde muito pequeno, intuir a complexidade das paisagens
rarefeitas e as angulações divinas que a mistura da palavra
com o desenho pode comportar. Me senti atraído instantaneamente
pelo richiamo1, depois disto naveguei quarenta anos nesta linguagem, muito
tempo...
Você freqüentou o curso de quadrinhos da Escola Panamericana
de Arte Argentina...
Sim, esteve lá com Dominguez, Bozzofi e Breccia como professores.
Breccia era o professor da escola de desenho em preto e branco, estudava-se
anatomia, faziam-se exercicios de ditar um sceneggiatura2 em imagens.
Ali estava também Pratt mas eu não o tive diretamente como
professor pois ele tinha acabado alguns meses antes de eu começar.
De qualquer forma eu sou um prattiano matinal3.
Os primeiros trabalhos publicados são desta época?
Sim, trabalhei numa editora que funcionava numa modesta casa do bairro
de Barraca. Gostaria de tocar aqueles ambientes com meus desenhos. Um
rapaz tinha montado uma revista que se chamava Rapidoso, e eu comecei
a trabalhar pela pequena editora. Ele escreveu uma história de
cow-boys, o seja, os vaqueiros estadunidenses e eu realizei uma coisa
meio surreal, de fato eu tinha os meus 16 anos...
A influência de Breccia e Pratt então foi à base do
seu traço ‘expressionista’?
Digamos que com Breccia e Pratt eu tive abertas duas janelas muito grandes,
através das quais eu cheguei em outras janelas e outras janelas
ainda. Eu acho que as janelas que podemos trazer é um caminho que
há dentro de cada um de nós. Acho que a linha de Pratt pode
ser definida expressiva. No preto e branco e nos contrastes de luz e sombra
trabalhou muito mais Breccia, sobre este versante expressionista, se assim
convencionamos chamar toda aquela corrente artística que vai do
começo do século até os anos trinta e da qual eu
gosto muito. Vejo que eles viam, enfim.
Como foi o encontro com o roteirista Carlos Sampayo?
Com Carlos nós conhecemos na Espanha, em ’74. Foi através
de um amigo comum que morava em Londres e intuiu que poderíamos
fazer alguma coisa juntos. Foi uma amizade instantânea e apesar
de não trabalharmos juntos há cinco anos não perdemos
a esperança. Minha mudança para a Europa se deve fundamentalmente
a uma necessidade de trabalho. O desejo de me aventurar em outras realidades
porém era muito forte, queria ver outros desenhos reais: outros
países... e o desenho de outros países. Queria descer ao
desenho de coisas diferentes, queria viajar no sentido curioso do termo
e este trabalho o permite.
As referências culturais deste pais antigo que é
a Europa como te influenciaram?
Não posso exclui-lo, mas de qualquer maneira não tenho a
contraprova de como teria me desenvolvido no meu país, admitindo
que as condições econômicas o tivessem permitido.
Nos últimos trinta anos aconteceram muitas surpresas na vida, boas,
ruins... e isto muda também o desenho. As vezes acho que há
um tremor particular dentro de cada desenho, vai se transformando de acordo
com a experiência de ser humano dia após dia neste contexto
um pouco caótico e arcaico. Este país no qual eu vivo, assim
como os países vizinhos são um pouco como as casas dos tios
para nós argentinos, daqueles tios até simpáticos
então... Mexi-me um pouco neste minúscula bola de barro
que se chama terra, isso é o que eu fiz.
Você desenha historias de outros autores. Costuma intervir
nos roteiros?
Com Sampayo fundamentalmente ele escrevia e eu desenhava, porém
depois ele entrava na minha área e eu na dele, talvez mais eu na
dele, pois tínhamos que estar de acordo sobre o conteúdo,
tínhamos de encontrar algo que divertisse a ambos e nos divertíamos
em mesclar as nossas visões. Vê-se um pouco uma mistura harmônica
na nossa colaboração. Desde ’92 (ele esteve muito
doente até ’94) interrompemos o trabalho junto. Eu desenhei
outras histórias com outros escritores e agora estou fazendo um
segundo trabalho com o escritor norte-americano Jerom Charim. É
um conto pela Casterman, a transposição em quadrinhos de
um romance que se chama Pannamaria. Em ’96 fizemos também
uma outra história que se passa nas américas e que em Italiano
deve-se chamar O canino do serpente... Pelos contos compridos sempre trabalhei
com escritores. Crítica social e antropológica, autocrítica
através dos outros e todas aquelas piruetas que podemos fazer dentro
daquele parque de diversões que é a palavra e o signo.
Faço imagens mudas, acho que são muito narrativas. Isoladas,
em cores, as exponho e às vezes consigo também abrir uma
série de janelas em direção à expressão
das imagens por figuras. Gosto muito da possibilidade de isolar as imagens,
não no sentido ruim da palavra, não quero isolar por isolar,
mas sinto um pouco que a história real falta de sceneggiatura,
que há muitos personagens sem diálogos e que não
pertencem à sceneggiatura da história, são para poucos
leitores e brincando nestes esfumados você pode dar um pouco de
vida a este tipo de pensamentos, a estas imagens que te assalem. Tento
de colocar os desenhos vagantes que tenho dentro, tento de colocá-los
dentro estruturas que propõem narrar como colaboração.
Você vai colocando suas obsessões.
O desenhista faz um trabalho de introspeção das
imagens? Estas surgem de dentro ou são gravadas do mundo objetivo?
Nós somos um olho que pensa, que olha para dentro ou para fora.
Não há uma precisa fronteira neste caos delirante que é
a vida, pois alguém com esta particular obsessão, desejo,
tem talvez a capacidade de dar vida às coisas desenhando. Eu acho
que é um caminho assim, também de investigação
interna, de nirvana, de sortudo passatempo4 para atravessar as penúrias
do mundo, o que não quer dizer que um tenha que se esconder nos
traços, mas um tranqüilizante, um calmante é sempre
necessário quando você olha a realidade na cara.
A possibilidade de tocar no fundo os leitores vem da capacidade do desenhista
de olhar profundamente dentro de si?
A possibilidade, o desejo, a condenação... as coisas deveriam
ser feitas sempre o melhor que se pode. Quando alguém lança
histórias ao mundo é um trem complicadíssimo, os
desenhos são uma representação de quem os tem feito,
com a elaboração de uma linguagem feita por homens. Esta
é a viagem das impressões que você vai recebendo.
Esta visão mais subjetiva do quadrinho autoral como se
incaixa na realidade do mercado? Hoje este tipo de revista está
sumindo...
Somos uma espécie que viu seu campo pegar fogo nos últimos
7-8 anos. Além disto há uma progressiva dificuldade das
gerações que chegam a acessar à linguagem dos quadrinhos,
porque tem outras coisas que talvez os impeçam de gozar deste prazer
quieto, imóvel do escorrer das histórias com desenhos e
palavras... mas podemos nos queixar contra este destino cínico
e avarento, podemos continuar a fazer. Eu sou também perplexo quando
falo com pessoas que querem fazer este tipo de trabalho, devo adverti-los
das nuvens negras, Não é dito que você tenha que se
fixar que este trabalho tenha que te dar o que comer. Chegamos a situações
praticamente artísticas, no sentido bom da palavra. O amor pela
arte tem que sair se você tem a tentação de contar
coisas nesta linguagem mesmo quando o vento sopra contra. Digamos que
para o nosso tipo de conto, agora com Sampayo seria difícil propor
uma coisa que as editoras acham que venderá menos de 10.000 exemplares.
Nos álbuns na França, por exemplo, as coisas estão
se nivelando através da exclusão dos autores que vendem
menos. Estas histórias não foram feitas olhando à
venda. Com Sampayo as histórias sempre vieram dentro de nós,
num momento particular e é uma parte arriscada do nosso trabalho
mas que o faz gozável, no sentido profundo do termo, pois conseguem
um pouco fixar as impressões do passar do tempo, talvez também
através destas precisações. Assim em quem o olha,
e depois em quem o olha para ver que tipo de caminho pode empreender naquele
universo do desenho e da palavra, há tremores humanos que nos acompanham
há séculos. Eu acho que somos um pouco dinossauros, é
a última escrita manual que consegue ser impressa, não sei
por quanto tempo! Aquilo é uma caligrafia. Os nossos estilos são
caligrafias da alma, aquilo que bate dentro de nós, aquele imenso
caos de interinfluências, tendências de vida, ou seja todo
o caos da criação e de frutos temporâneos numa série
de ‘ências’.
Talvez a educação pode ser uma opção
para o quadrinho autoral?
Educação em que sentido? Sempre é educação
se você faz quadrinhos e os faz bem...
Entendo a educação escolar, no sentido de romances históricos
em quadrinhos que possam oferecer através do desenho e do texto
uma referência mais profunda e estimulante para os alunos que as
vezes estudam em livros pouco interessantes.
Quando se faz um filme, principalmente, um livro ou uma biografia inventada
por um escritor de um personagem histórico estas coisas podem ser
feitas. Você pega um pouco o caráter da história,
marcando o momento adaptado à sua figura, se considerar que por
estas razoes seja possível ser... mas deve vir de dentro porque
geralmente quando se fazem coisas didascalicas5 estas cumprem sua função...
tá bom, você ganha um pouco mas é o conto de um personagem
histórico nas mãos de fábricas de lingüiça,
coisas meio dozinais6, simplistas ou seja, algo muito didascalico. Mas
não é dito que você não possa fazer coisas
muito lindas. Bom, aquilo que fizemos com Sampayo, por exemplo, quando
fizemos a Billie Holiday, pegamos uma pessoa muito querida, pois sua voz
é como uma pessoa para nós e a pessoa que tinha por trás
nos deixou apaixonados ao máximo pelo seu talento e agradecidos
fizemos uma história próxima e distante ao mesmo tempo à
sua vida real, fizemos uma espécie de versos, de diferentes brani7
musicais. Sampayo com as palavras e eu com os desenhos. Toda aquela história
é um brano musical desenhado. Todas estas coisas por baixo quando
se misturam os diferentes filmes da linguagem, quando vem um pouco a vertigem,
o tordeziño8 o remoinho das línguas que se misturam ...
parte integrante da nossa identidade, uma entidade muito móvel...
Para falar destas coisas tento sempre de fazer sair a pessoa que está
por trás do desenho e da palavra, eu tento fazer coisas vivas.
A música sempre foi presente em teus quadrinhos: em ‘Alack
Sinner’ há uma citação a Gato Barbieri, e ainda
há histórias como a da ‘Billie Holiday’ e ‘O
trompete do diabo’ do Batman Black & White. Como passar no quadrinho
uma sensação parecida com a da música?
Acho que é um pouco aquele arrepio nas costas que me dá
um acorde musical, a passagem de uma sfumatura9 para outra numa pintura,
num desenho riuscito10, um pescoço que crio, uma expressão
válida que crio e que casa com aquele pescoço quando há
uma paisagem na qual as arvores são tremulantes, fremindo no espirito
de quem os desenhou. Quando você entra assim no estado do movimento,
ali você alcança, como dizer, através da exploração
da linguagem... acho que neste caso a música se alcança
num contraste particular, acho que numa pincelada do Pratt ou num traço
do Breccia eu posso encontrar um acorde musical conseguido. A música
do Pratt são as luzes e as sombras, alí e dentro. Logo quando
nós fazíamos a Billie Holiday havia como uma orquestra que
batia dentro de nós ao ritmo da sua música, nós éramos
levados pelo seu ritmo. Pelas diferentes linguagens que temos em nós
podemos individuá-lo.
Em teus desenhos é a sombra que revela a luz, ou a luz
à sombra? Ou é um dialogo?
Acho que é um diálogo. Geralmente começo com os traços
de pena, mas há vezes que começo a manchar, depende do que
vejo. O olho quer, mas as vezes sente a influência como acontece
na famosa realidade.
Você realizou poucos trabalhos em cores, eu vi um episódio
de Alack Sinner, ‘Norte-americanos’, talvez colorizado posteriormente
e uma vibrante capa da revista ‘El Víbora’ pela história
‘Outono e Primavera’. Você prefere realizar histórias
em preto e branco?
Prefiro ambos, um é o antídoto do outro... eu vou fugindo,
sou um fugitivo (risos) e vado alla macchia dentro de mim... na verdade
recorro aos dois por razões alternadas, como as vezes prefiro começar
a fumettare11 sabendo de onde parto mas não aonde vou chegar. Às
vezes você pode trabalhar numa história que tenha já
o desenvolvimento definido, outra é apenas um canovaccio12. Você
vai buscando coisas alternadas na vida, depois você escapa da rigidez,
da estrutura preconcebida e se joga nas águas do quadrinho navegando
sei lá para onde. Mas ambas estas coisas são muito atraentes.
Eu faço uma familiaridade entre cor, preto e branco e história
pronta para ser posta em imagens, outras vezes preciso fazer coisas verdadeiras,
como estou fazendo histórias muito compridas para ter a possibilidade
de fazer algo de finito cada dois ou três dias, pois se perdem os
meses com as histórias sem limites com as páginas que lentamente
vêm a luz, aí vou buscar também idéias que
me assaltam, desenhos que depois desenvolvo... acho que tudo isto é
o resultado da fecundação necessária entre uma coisa
e outra, de suas necessidades internas e também da possibilidade
a respeito do mundo externo, a famosa realidade, de ter possibilidade
de fazer coisas diferentes.
Há um momento, principalmente nas histórias compridas,
no qual a ficção chega a afetar a realidade, extrapolando
os limites da página? Lembra alguma em particular?
Aquilo que inconscientemente acho que sempre tentamos fazer foi pular
fora da página, chegar a fazer aquilo que escrevia Oesterheeld,
quando eu comecei a publicar histórias roterizadas por Oesterheeld,
tinha 17 anos, algum ano depois daquela experiência que contei antes,
comecei a ter trabalho com ele, que não fazia nenhuma restrição
visual, ou quase, colocando de vez em quando o caráter ‘mira
al lector’. Podemos dizer que nossos trabalhos tentam ser um olhar
ao leitor quando você cruza o olhar com alguém e se produz
aquele desejo que não seja apenas papel, que não seja apenas
um trabalho de preencher as páginas chatas, falando com respeito,
mas sem vida, sem envolvimento pessoal do autor com a história
que está contando, sem um investimento emotivo.
As perspectivas para o futuro. Algum trabalho para ser realizado?
Um sonho na gaveta?
Sonhos, sim! No caso do desenho poder realizar um trabalho que retrate
uma parte do meu país, um aspecto particular da Argentina no sentido
europeístico cosmopolita, gosto daquela parte do meu país
que não se perdeu completamente, que mantém aquela sua multi-origem
que você encontra lá como aí no Brasil, mas com outra
temperatura, com outra mistura, com um outro resultado no sentido estético,
glorioso ... que é a multiplicidade dos nossos países. Tenho
que fazer uma série de imagens argentinas a dois ou três
cores para um livrinho que vai sair. Me dá muito prazer pensar
que me espera.
1Richiamo:
apelo, chamado.
2 Sceneggiatura: cenografia narrativa, story-board.
3Prattiano matinal: discípulo de Hugo Pratt.
4Passatempo: uma forma de passar o tempo, como os jogos com baralho.
5Didascálicas: de didascalia, legenda. Texto que aparece no quadro.
6 Dozinais: que se vende à dúzia. A quantidade frente à
qualidade.
7Brani: parte de uma música.
8Tordeziño: torvelinho.
9Sfumature: de sfumato, esfumado.
10Riuscito: conseguido, bem sucedido.
11Fumettare: fazer fumetti, ou seja, quadrinhos.
12Canovaccio: pano, papel onde é rabiscado o esboço de uma
história. |