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A cidade do maltese

“Veneza seria o meu fim!”
Assim Corto Maltese, marinheiro e “cavalheiro de sorte” de expressão irônica, a piada corrosiva, mas de fundo romântico, conclui a aventura lagunar “O Anjo da Janela do Oriente”, publicada em 1971. O faz dizer seu criador, o quadrinista Hugo Pratt, que passou quase uma vida em Veneza entre longas viagens e provisórios adeus.
A história, que se desenvolve durante a Primeira Guerra Mundial, vê Corto atrás de um mapa do Eldorado. Visita os monges da ilha de São Francisco do Deserto, encontra o rabino no Ghetto Vecchio, metralha e derruba um avião austríaco, descobre uma filial de espiões. E ainda assim, o protagonista compreende que a particular atmosfera veneziana o deixaria preguiçoso, envolvendo-o em um misto de tradições, magia, arcanos e simbolismos: viver entre “calles” e canais, sucumbir ao encanto o levaria a perder a identidade de vagabundo.
Talvez seu protagonismo rime com narcisismo. E então prefere resignar-se. Com mágoa.


Hugo Pratt com Giogio Bellavitis e Elisio Trevisan em Veneza. As fotos foram tiradas pelo quadrinista Leone Frollo em 1949. Encontradas no Canadá, as imagens retratam o grupo que desenhava a revista L’ Asso di Picche, no telhado do estúdio de Palazzo Baglioni. Quatro anos depois, o grupo seria convidado pela argentina “Editorial Abril”, que levou Pratt a Buenos Aires.
 

Corto retornará à cidade como um inesperado “hóspede”, caído do teto durante uma reunião maçônica, em “Fábula de Veneza – Sirat Al Bunduqiyyah”, de 1977: seguindo o fantasma do escritor maldito Baron Corvo, busca traços da esmeralda chamada Clavícula de Salomão.Se ambígua parece a cidade noturna onde cada sombra refletida na água pode esconder a insídia, e enigmáticos como esfinges são os leões gregos sob a porta do Arsenale, violentos ou misteriosos, ou até ingênuos, são os personagens encontrados por Corto. No lugar da esmeralda, encontra a carta do Baron Corvo, datada de primeiro de abril. Um trote, portanto. Ele não liga muito.Improvisadamente, descobre no bolso a jóia. Assim como fazem os venezianos cansados das autoridades, quando pretendem emigrar para mundos maravilhosos, também Corto baterá à porta de um dos lugares mágicos da cidade. Para quem quiser tirar a prova, fica em Calle de l’Amor dei Amici, próximo ao campo San Paolo, sobre a Ponte delle Maravegie, rumo à Academia.

Já Calle dei Marrani, indicada em San Geremia, existe, ahinoi, só na fantasia de Pratt. Se Corto parte de Veneza para outras aventuras, quase trinta anos antes um certo Gary Peters chegava dos Estados Unidos para a “Aventura em Veneza”, de 1949. Se escondia sob esta identidade o “Asso di Picche”, justiceiro de calça colada, mascarado e encapuzado. Primeiro personagem dos quadrinhos criado por Hugo Pratt e Mario Faustinelli em 1945, para os álbuns Uragano, cuja redação era em San Canciano. Um gângster escapa com um fabuloso diamante e se refugia em Veneza, perseguido por seus cúmplices. Temendo uma vingança, pede ajuda ao Asso di Picche.O assassinarão sob as estátuas dos Tetrarchi, no canto entre o Palácio Ducale e a Basílica de San Marco. Asso seguirá o assassino até o topo da Torre do Relógio, onde o martelo dos Mori, que batem de hora em hora, o golpeará na têmpora, fulminando-o. A polícia (com curiosos capacetes coloniais) encontrará o objeto desaparecido. Sobre ele, uma carta de baralho, o ás de espada, com o escrito: “Com meus cumprimentos a esta maravilhosa Itália.”É um convite a retornar. O que pretender de melhor?

Agradecemos Claudio dell’Orso, autor do texto desta página, que cedeu as fotos e Maurizio Ercole, que viabilizou esta matéria. fotos: © Leone Frollo

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