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A gota d'àgua
Pablo Pires

A história do futebol é indissociável da violência: faltas feias, contusões e brigas, torcidas que se batem dentro e fora do estádio. É uma parte triste do futebol, embora corriqueira. No entanto, houve um dia em que o futebol foi o estopim de uma guerra real, com invasão de fronteiras, soldados trocando tiros e tanques e aviões lançando bombas contra o inimigo. A Guerra do Futebol, ou Guerra das Cem Horas, como ficou conhecido o conflito entre El Salvador e Honduras, em 1969, mobilizou as forças armadas de cada país para lutar contra a nação vizinha.

As origens do confronto são outras. Mas o fato é que os três jogos pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970 disputados entre as duas seleções ajudaram a revolver uma série de animosidades e a elevar as tensões já existentes, ao ponto de os dois países travarem uma sangrenta batalha que resultou em cerca de 2.000 mortos (alguns falam em 6.000).

A Guerra do Futebol é um dos nomes dados ao conflito e, apesar do repúdio de diversos historiadores, foi largamente difundido pela imprensa na época. Muito dessa divulgação se deve ao excepcional jornalista polonês Ryszard Kapuscisnki, o repórter que narrou em detalhes as batalhas e suas causas. O lado propriamente futebolístico do confronto mais amplo entre os dois países foi a gota d’água que faltava para a guerra eclodir. O caos dos três jogos mostrou que a paixão pelo futebol pode chegar a pontos de violência difíceis de imaginar.

As duas seleções se enfrentaram três vezas pelas semifinais das eliminatórias da Copa. Em 6 de junho de 1969, a equipe de El Salvador chega a Tegucigalpa, capital de Honduras, para a primeira disputa. Os torcedores hondurenhos passaram a noite diante do hotel onde a seleção salvadorenha estava hospedada. Centenas de pessoas urravam e soavam panelas, latas e o que houvesse para fazer barulho. Coros com palavras de ordem e gritos ofensivos, centenas de carros buzinando e pedras contra as janelas do hotel também foram constantes ao longo de toda a noite. Tudo para que os jogadores adversários tivessem uma noite mal dormida e, com isso, entrassem em campo com a moral e o físico abalados. A campanha funcionou. No dia seguinte, a seleção hondurenha venceu a partida por 1 a 0, com um gol nos últimos minutos.

A mídia de El Salvador jogou mais lenha na fogueira, publicando relatos de torcedores salvadorenhos agredidos, acusações dos jogadores de que haviam sido intoxicados por funcionários do hotel e descrições detalhadas de como fora a noite insone da seleção.
Um fato ainda mais trágico foi largamente explorado pelos jornais. Amelia Bolanios, adolescente salvadorenha de 18 anos, assistia ao jogo pela televisão. Quando Roberto Cardona da seleção de Honduras marcou o gol e selou a derrota de El Salvador, ela se dirigiu até a escrivaninha, abriu a gaveta, tirou o revólver de seu pai e se matou com um tiro no coração. O jornal El Nacional, de San Salvador, estampava no dia seguinte: “A jovem não suportou ver seu país de joelhos”.

O suicídio de Amélia provocou uma comoção nacional, amplificada pela mídia de uma maneira estrondosa. O cortejo contou com a presença de militares, do presidente da República, assim como dos 11 jogadores da seleção. Tudo transmitido ao vivo na incipiente televisão salvadorenha.

Para o jogo de volta, dia 15 de junho de 1969, no estádio Flor Blanca de San Salvador, a equipe de Honduras sofreu as conseqüências da provocação da torcida de sua pátria. Os torcedores salvadorenhos trataram de tornar a noite da seleção hondurenha ainda mais infernal que em Tegucigalpa. Citando Kapuscisnki: “Os enfurecidos torcedores salvadorenhos quebraram as vidraças de todas as janelas do hotel, atirando para dentro dos quartos toneladas de ovos podres, ratos mortos e panos fedorentos”.

A seleção teve que ir para o estádio sob proteção e escolta, em carros de combate. Centenas de militares cercavam o estádio. O público vaiou o hino e a própria organização da partida içou a bandeira nacional de Honduras, esfarrapada. O resultado, para o bem dos jogadores, foi favorável a El Salvador: 3 a 0. Depois da partida, a equipe foi direto para o aeroporto, ainda escoltada, e partiu. Os torcedores, no entanto, sofreram a ira do adversário. Os relatos são contraditórios, mas houve agressões e há quem cita até a morte de dois hondurenhos.

Com o resultado, uma terceira partida teria que ser disputada, em campo neutro. O confronto estava marcado para 25 de junho. Dois dias antes, porém, El Salvador acusou formalmente Honduras de genocídio perante a Organização das Nações Unidas (ONU). Ao mesmo tempo em que as duas seleções rumavam para o estádio Azteca, na Cidade do México, os dois países fechavam as fronteiras. Salvadorenhos em Honduras sofriam represálias, vários foram assassinados. O jogo foi violento, dentro e fora do campo. Sob uma forte chuva, terminou empatado em 2 a 2. Na prorrogação, o atacante Pipo Rodriguez, de El Salvador, marcou o gol que garantiu a vaga na final das eliminatórias contra Haiti.

Os dois países já viviam problemas internos, com governos corruptos, pequenas oligarquias que dominavam boa parte da frágil indústria e das terras produtivas, modelo de exportação dominado por empresas norte-americanas. Ou seja, um clássico do subdesenvolvimento latino-americano. O nacionalismo exacerbado opunha os dois países, mas não era só isso.

Com um quinto de extensão territorial em relação a Honduras, El Salvador tinha a maior densidade populacional do continente, com 160 habitantes por quilômetro quadrado. Eram 3,3 milhões de habitantes contra 2 milhões em Honduras. As terras estavam nas mãos de menos de 20 clãs latifundiários, o que deixava uma enorme massa de camponeses sem trabalho.
Em Honduras, sobravam terras cultiváveis, o que, nas palavras de Kapuscisnki, que cobriu o conflito in loco, deu início a uma emigração “silenciosa e ilegal, mas tolerada, por anos, por Honduras”. Desde a década de 20, camponeses salvadorenhos atravessavam a fronteira e trabalhavam no país vizinho, sem qualquer garantia, mas mantinham sua subsistência.

Entretanto, os trabalhadores rurais hondurenhos começaram a protestar por falta de terras e o governo decidiu promover a tão prometida reforma agrária. Apesar das extensas fazendas de bananas nas mãos de empresas norte-americanas (responsável por 60% das exportações do país), a proposta consistia em distribuir as terras ocupadas pelos salvadorenhos, legal ou ilegalmente. Terras, só para nascidos no país. Em 1969, eram cerca de 300 mil salvadorenhos vivendo em território hondurenho.

Outro problema era de fundo comercial e político. Uma proposta esboçada em 1821, ano da independência da Espanha, estava novamente em pauta: a criação do Mercado Comum Centro Americano (MCCA), que abrigaria El Salvador, Costa Rica, Nicarágua e Guatemala. O principal objetivo era diminuir a extrema dependência em relação aos Estados Unidos, promovendo o comércio entre as nações da região. Washington, obviamente, não via essa tentativa de autonomia com bons olhos e, por meio das companhias frutíferas, tratou de impor mais pressão para a expulsão dos imigrantes salvadorenhos de Honduras.

A ação do governo para expulsar os camponeses de volta ao país vizinho só fez crescer as animosidades. O retorno de milhares de camponeses miseráveis a El Salvador expôs a fragilidade do governo conservador e oligárquico do coronel Fidel Sánchez Hernández, eleito dois anos antes com o apoio dos militares. Paramilitares hondurenhos, apoiados pelos Estados Unidos, reprimiam salvadorenhos com violência.

Teve início uma verdadeira campanha de ódio promovida pelos meios de comunicação dos dois países. Havia pichações em muros, frases e cantos ofensivos de toda espécie. “Hondureño, toma um leño y mata a um salvadoreño” (Hondurenho, pegue um pau e mate um salvadorenho) era um mote repetido pela população.

Os jornais de ambos os países, que já amplificavam as hostilidades, se exaltaram e a rixa futebolística era apenas um pretexto para promover ainda mais a rivalidade entre os dois países. Imagens divulgadas pela TV de salvadorenhos sofrendo repressão em Honduras contribuíram para inflar os ânimos. No dia seguinte à desclassificação, Tegucigalpa rompeu relação com San Salvador. Duas semanas depois, em 14 de julho, aviões salvadorenhos bombardeavam a capital de Honduras. Guerra declarada.

O combate foi curto. Durou de 14 a 18 de julho. A Organização dos Estados Americanos (OEA) – que, de maneira excepcional, não contou com a participação dos Estados Unidos – conseguiu aprovar um cessar-fogo. Além das baixas, militares e civis, os danos na infra-estrutura dos dois países foi significativa. Os dois países proclamaram vitória e os governos militares usaram a guerra para se auto-promover e incrementar o militarismo com o apoio dos Estados Unidos, que serviria, não apenas para justificar a defesa contra futuros ataques, mas, na prática, reprimir qualquer divergência dos regimes ditatoriais vigentes.

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