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Uma cosmogênese dos signos


 
  Pinturas parietais destinadas à iniciação dos jovens Dogon num santuário do Mali. Nesta região da África, a produção ritual dos símbolos pode durar vários dias e é repetida ciclicamente. A participação direta é indispensável para a transmissão do saber.
Se o contexto em que foram realizadas as pinturas do paleolítico permanece bastante misterioso, a tradição perpetuada pelos povos da África ocidental conserva, até hoje, a história mítica da origem dos signos.
Para esses povos o universo teria sido originado a partir de uma palavra, expressão do pensamento de um Deus criador. Do nada, Ele teria feito surgir signos que designavam tudo aquilo que existe. Em seguida, Ele teria criado a matéria na forma de uma placenta e nela teria inscrito os traços iniciais, correspondentes às entidades, ou princípios espirituais, das coisas e dos seres vivos. Fundamento da criação, os signos constituem “a semente de todo conhecimento” 10 e precedem ao surgimento das coisas e dos seres.

Na tradição do povo Dogon, que habita a região do Mali, os sinais que levariam à realização do mundo teriam se desenvolvido durante quatro fases: a princípio os signos abstratos, gerados por Amma; em seguida os traçados pontilhados, marcas consideradas como ‘o começo da coisa’ e que são desenhados, por exemplo, nos cantos da fundação de uma casa, antes de sua construção; então apareceram esquemas e figuras, chamados de tonu; e finalmente os desenhos realistas, os toymu, que correspondem à ralização da coisa representada.

Na região do Mande, os signos fundamentais são 266 e remetem aos dias da gestação humana. Esses símbolos são repetidas a cada sete anos nos santuários espalhados pelo território Dogon. Durante os rituais, os signos são pintados na parte interna da construção, seguindo uma ordem precisa. Conforme seu papel na cosmogênese, o desenho é colocado em relação à coisa que indica e da qual é a origem, podendo ser declamado enquanto é traçado no chão, gravado, pintado ou ainda tatuado. Nas paredes externas do santuário, após uma sumária caiação, são realizadas também pinturas complementares que remetem àquilo que aconteceu após a ‘gestação do universo’.

Esses signos não podem ser lidos como um texto. A compreensão do significado das figuras está sujeita à transmissão direta do saber. A variedade de recursos empregados nos rituais proporciona uma percepção da realidade bem diferente da que pode ser adquirida, por exemplo, por meio de um livro ou de um filme. No seu complexo, as imagens realizadas nos santuários formam uma espécie de ‘geografia mítica’ do território e das tradições deste povo. A repetição ritual das figuras, uma geração após a outra, tem a função de perpetrar os seres e os objetos representados.

Um mito Dogon, recolhido por Marcel Griaule, narra a história que acompanha a produção dos signos no decorrer do ritual totêmico* do binu. O mito conta como Amma, um dia, criou um casal de seres animados, dois gêmeos. Um deles, porém, resolveu nascer prematuramente. Quebrou um pedaço da placenta que o envolvia e com ela desceu para o mundo.
Para consertar a desordem causada pelo nascimento antecipado deste ser, Deus decidiu então imolar o irmão gêmeo, que se encontra ainda na placenta. Cortou então o cordão umbilical, degolou a vítima, derramou o sangue sobre o chão e desmembrou o corpo em 22 partes. Cada etapa do sacrifício, corresponde a uma etapa da formação do mundo: a formação dos astros, das montanhas, dos rios, das espécies 11.

Após este processo, a vítima resuscitou então como adulto. Este ser, Faro, é encarregado então de revelar aos homens a palavra criadora, assim como ele a recebeu, ainda em seu estado fetal, por meio dos signos inscritos na placenta. Expressão da linguagem articulada, os signos são revelados por meio de três objetos: um grão, um tear e um tambor, respectivamente associados a três técnicas. Expressão do desenvolvimento do pensamento, eles remetem, nessa sucessão, à própria gênese do espaço: partindo do ponto, passando pelo plano e chegando ao volume.
Ancestral dos homens, esse irmão acaba por tornar-se ele mesmo objeto do culto totêmico: Os 22 pedaços em que é dividido o corpo correspondem aos clãs que se identificam com ele.

Se, por um lado, as pinturas rituais africanas narram uma história mítca, por outro lado elas lembram alguns aspectos dos grafites contemporâneos. O processo e as técnicas de realização de um grafite podem ser transmitidas apenas de um grafiteiro para outro, por meio da prática. As modernas ‘sprayações’ (termo criado por Décio Pignatari) têm,dentre outras, a função de ‘demarcar o território’ de um determinado grupo de grafiteiros ou pichadores. O conjunto dessas inscrições marca a área de atuação do grupo e cria um percurso significativo na malha de ruas e avenidas. A própria cultura hip hop, que acompanha a moderna produção de grafites, se caracteriza pela aproximação de várias linguagens: além do graffiti, ela inclui a música, a dança e a poesia.
 
Casal mítico de gêmeos na placenta. Gravura parietal de Guelmuz el Abiod, África do Norte.
   
 

Imperoratriz, versão decadente do mesmo tema, na HQ Incal, do cineasta chileno Jodorowski, desenhada por Moebius. Empregnada de elementos místicos, esta história do universo tem uma estrutura circular.

 


*A palavra totem deriva do idioma algonquim dos índios ojibwas, da América do Norte. Para o etnólogo Claude Lévi-Strauss, o totem é uma das formas empregadas no ‘pensamento selvagem’ para manifestar a existência de categorias e correspondências na natureza. O mesmo princípio aparece nas inscrições e siglas empregadas pelos grupos de pichadores.

10 G. Dieterlen, Segni Grafici, 1989, p. 1627.
11 Ibidem, p. 1794.
   
 
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