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O deus Toth em um desenho do tcheco Enki Bilal, para a HQ La foire aux immortelles. No detalhe, o deus, como aparece num baixo relevo realizado por volta de 2400 a.C.
A invenção dos hieróglifos, a ‘escrita sagrada’, era atribuída ao deus Thot, divindade lunar representada com uma cabeça de hibisco. Era responsável pelos calendários e pelo cálculo do tempo. Inventor da magia, era também patrono das ciências e dos escribas. |
O Egito
No 3º milênio a.C., a civilização do antigo Egito desenvolveu, paralelamente ao cuneiforme sumério, a escrita hieroglífica (do grego hyeròs, sagrado, e gliphein: gravado, escrito: escrita sagrada).
Diferente dos pictogramas sumérios, que evoluíram progressivamente para a estilização cuneiforme, a escrita hieróglifa empregou desde o começo signos pictóricos e fonéticos simultaneamente, além de símbolos determinativos que definiam a categoria de coisas e seres às quais se referia a inscrição. A invenção destes signos, considerados sagrados, era atribuída ao deus Toth.
Os hieróglifos eram traçados dentro de uma grade quadriculada. Em cada compartimento a disposição destes signos era livre, podendo variar conforme o comprimento de cada palavra. As vogais não eram representadas, gerando uma certa dificuldade na leitura que podia ocorrer de cima para o baixo e, nas composições horizontais, da direita para esquerda e da esquerda para direita. A direção a ser seguida era indicada pelas figuras presentes nos próprios hieróglifos, cuja cabeça era colocada virada para o começo do texto 22.
A profissão de escriba era tida em grande consideração. Era ele que fiscalizava o trabalho de todos: além das práticas dos escritórios administrativos, realizava medições, recenseava o gado e a produção agrícola, além de coletar os impostos.
A produção de imagens era obra de artesãos que trabalhavam a serviço do faraó (título do soberano egípcio) ou do templo, geralmente pagos com cereais. A profissão era passada de pai para filho mas, eventualmente, na oficina eram aceitos aprendizes.
A realização das ilustrações seguia um cânone (do grego kanon, regra). preciso: o corpo humano era representado de forma bidimensional, com a cabeça e as pernas de perfil e o tronco de frente, como uma pessoa que tenta se achatar ao máximo contra uma parede 23. O corpo era inscrito numa grade, geralmente pintada com tinta vermelha, de 18 quadros de altura. Cada quadro tinha a medida da palma da mão da figura representada. Nos baixos-relevos, antes de ser esculpida, a figura era traçada com nanquim preto. As obras tinham principalmente uma função prática, eram imagens votivas ou comemorativas que traziam inscrições com o nome do personagem representado, seus títulos ou, eventualmente, uma invocação. Na maioria dos casos, estes objetos eram destinados a compor o enredo fúnebre das pessoas ilustres, como no caso do Livro dos Mortos, o mais antigo livro ilustrado do mundo.
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Um fragmento de o livro
dos mortos.
As ilustrações na parte alta do texto descrevem as etapa da procissão funerária, do acompanhamento do sarcófago à abertura da boca do cadáver.
Dispostos em colunas vferticais, os hieróglifos relatam fôrmulas que devem ser recitadas durante o ritual.
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O Livro dos Mortos era escrito geralmente com caracteres dispostos em colunas verticais, encimadas por um longa tira ilustrada. O livro funcionava como um ‘mapa do além’: o texto trazia fórmulas mágicas que o defunto deveria recitar, e as ilustrações mostravam o cortejo fúnebre e as etapas da ‘viagem no além’. Em alguns casos, as ilustrações eram dispostas em tiras e traziam, ao lado das figuras, hieróglifos que complementavam as cenas ou até a falas dos personagens.
Com o emprego de rolos de papiro como suporte, o texto dos mortos podia alcançar até 40 metros de comprimento. Obtido de uma planta aquática, o papiro é um material flexível e resistente, constituído por fibras vegetais entrelaçadas e secas. Uma vez enrolado, o livro era colocado no sarcófago, dentro de uma estátua de madeira oca com forma de múmia.
Dentre as outras relíquias encontram-se também as ushabti (de usheb, resposta), estatuetas de trabalhadores que traziam gravadas na testa o nome do morto e uma fórmula que as punha em ação. Quando o morto era convocado pela divindade para trabalhar, eram as ushabti quem atendiam ao chamado, trabalhando no lugar dele. Por representarem os trabalhos cotidianos da comunidade, estes achados constituem um registro precioso da vida no antigo Egito 24.
Além do texto dos mortos, outros documentos mais antigos já atestavam a fé dos egípcios numa viagem no além: as primeiras incisões datam de 2400 a.C. e são conhecidas como textos das pirâmides. Outro testemunho é constituído pelos textos dos sarcófagos, fórmulas gravadas no lado interno destes singulares caixões destinados a serem lidos pelos poucos que podiam ‘possuir’ uma tumba. |
| Os egípcios deixaram exemplos de tiras ilustradas parecidas com as HQ. Nesta cêna de luta entre barqueiros, os hieróglifos correspondentes à fala de cada personagem foram traduzidos ao pé da letra. |

| 1. Acerta ele no coração! |
2. Vem você!
Que ele não me golpeie. |
3. Levanta o teu braço contra ele, para que eu seja satisfeito! |
4. Vem você, contra este bastardo. |
5. Proteja-se do seu braço. |
6.Você, quebra a perna dele! |
7. Pega ele! Segura o barco! |
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Na articulada administração egípcia, logo acima dos escribas estavam os Mer, literalmente ‘aqueles nos quais está a boca’, ou seja, que tinham o poder de comandar. O lugar de maior destaque era ocupado pelos sacerdotes, logo abaixo do Faraó.
Entre as funções do sacerdote, estava a de cuidar da estátua de Amon, a divindade suprema do complexo panteão egípcio. As antigas entidades elementais e animais, herança da tradição totêmica dos Naqua - habitantes do Egito no período neolítico -, eram representadas nas estátuas com formas zoomorfas (com corpo humano e cabeça animal). Suas necessidades eram comparadas às dos homens: todo dia o sacerdote supremo oferecia alimentos ao Deus, retocava-lhe a pintura dos olhos, limpava e vestia sua estátua. Após este ritual, ele saía da sala do deus tomando cuidado para apagar suas próprias pegadas e lacrando a porta do templo 25. Outros povos, como os Incas, reservaram a mesma veneração às múmias dos soberanos que, além de possuir serviçais próprios, eram periodicamente levadas em procissão. A veneração de estátuas e ídolos (do grego eidolós, fantasma dos mortos, mas também imagem, retrato), a idolatria, será combatida ferozmente ao longo da história, principalmente no âmbito do monoteísmo (do grego mónos, só, e theós, Deus: um só deus) pelo qual a imagem material não pode ser confundida com a essência divina.Como veremos, a destruição sistemática das imagens será uma prática comum a todos os povos conquistadores que, aniquilando os símbolos e a memória das nações conquistadas, impõem suas imagens e domínio.
No período conhecido como Novo Reino (1570-715 a.C.), o Egito também conheceu um momento de fúria iconoclasta contra as imagens de Amon. O faraó Amenófis IV (1377-1358 a.C.) em luta contra os sacerdotes de Tebes, abraçou o culto monoteísta do deus Athon. As imagens até então figurativas das divindades foram substituídas pelo símbolo do disco solar.
Nesta época aumentam, nas imagens esculpidas nos templos, as cenas de conteúdo histórico, tendência que se consolidará com o registro de episódios bélicos.
Precursores de quase todo gênero de desenho, do retrato à sátira, os egípcios continuarão a empregar os hieróglifos como escrita monumental até a época da dominação romana, apesar de seus autores mal conhecerem o seu significado. Os hieróglifos desaparecem definitivamente com a dominação árabe 26 (séc.VII d..C.).
As marcas de turistas de todas as épocas serão gravadas nos antigos monumentos do Egito. Numa das coluna em forma de lótus do templo de Amon, em Luxor, ainda pode ser vista a assinatura gravada do poeta francês Arthur Rimbaud que, transferindo-se na África em 1880, enriqueceu graças ao comércio do café e ao tráfico de armas. |

‘Interpreto os sonhos tendo recebido este encargo de Deus. Boa sorte! O intérprete é cretense’.
Junto à inscrição na antiga placa publicitária de Saqqara, a imagem de um altar e da deusa Serápis em forma de boi. |
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Nesta sátira egípcia, animais normalmente inimigos são representados jogando dama e quidando uns dos outros. |
22 P. Simone, corso di geroglífico, l’ordinamento dei segni, in: R. Rossi, L’ Antico Egitto
- Le grandi epoche storiche,
Gruppo Editoriale L’Espresso SpA, Edizioni La Repubblica SpA-Scalagroup SpA, 2001, CD-ROM.
23 L. Marques, Pop Art, in: Galeria n. 11, 1988, p. 40
24 R. Rossi, Culto dei morti, in: L’ Antico Egitto, 2001.
25 Ibidem, I custodi dei riti.
26 M. Cohen, A escrita, 1961, p. 35. |
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