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Comics - os quadrinhos americanos |
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A história em quadrinhos (HQ), arte que une imagens em seqüência, acrescidas ou não de textos, e que dá ao leitor a ilusão de movimento, não tem data exata de nascimento. Não foi ‘inventada’ de uma hora para outra como, por exemplo, o cinema. Tampouco foi ‘descoberta’ por alguém. A HQ passou por um longo processo não-linear através da história para vir a se tornar aquilo que, a partir do início do século XX, ganharia a denominação de comics, nos EUA, bande desinée, na França, fumetti, na Itália, mangá no Japão, e por aí vai.
Se partirmos da sua essência - imagens desenhadas em seqüência com o intuito de contar uma história - teremos exemplos primitivos de quadrinhos nas pinturas das cavernas feitas na pré-história, nos hieróglifos do antigo Egito, no império asteca, nas iluminuras da baixa Idade Média européia, nas pinturas renascentistas do século XV... No entanto, o ano de 1895 e a charge Yellow Kid , do americano Richard Outcault, são aceitos pela maioria dos estudiosos como o marco inicial da HQ. Para eles, Outcault é o primeiro autor a usar balões, e Yellow Kid, o primeiro personagem fixo da HQ. Vivendo em um beco pobre da cidade de New York, o “garoto amarelo” fez sucesso justamente por se identificar com o público de classe baixa norte-americano. Inicialmente, as falas do garoto vinham escritas em sua camisola. Depois, passaram a ser colocadas em balões. O mérito de Outcault, porém, gera polêmica. Naquele momento, vários álbuns e personagens já haviam sido lançados na Europa e até no Brasil, como veremos nos capítulos seguintes.
Os exemplos do suíço Rudolph Töppfer, do alemão Wilhelm Busch e do brasileiro Ângelo Agostini não podem ser ignorados como momentos cruciais na evolução mundial dos quadrinhos, num processo de grande ebulição durante toda a segunda metade do século XIX.
Talvez a grande diferença de Yellow Kid em relação aos outros quadrinhos, é que ele vinha publicado diariamente em jornais. Alcançava um grande e diferenciado público todos os dias. Já os álbuns como os de Töppfer e Busch eram quadrinhos em sua essência, mas não eram grandes fenômenos de comunicação de massa como Yellow Kid e outras tiras publicadas naquela época nos jornais norte-americanos 1. Como todos os jornais do mundo no final do século XIX, os americanos eram ricamente compostos com ilustrações. As fotografias custavam ainda muito caro e as ilustrações, que vi-nham acompanhadas de legenda e eram chamadas de charges, deram assim o passo inicial para popularizar a HQ. O próprio Yellow Kid era uma charge. Tais charges, de tão populares, ganharam importância no jornal e passaram a ocupar cadernos inteiros. Pouco a pouco, se desdobraram em uma variação com mais quadros, que passou a ser chamada de comic strip (em bom português: “tirinhas”). As comic strips eram quase sempre um pequeno ‘teatrinho’ desenhado. A ação passava-se entre dois personagens (não raro, crianças), e o gênero invariavelmente era a comédia de costumes. Naqueles tempos, não se desenhavam muitos cenários, closes ou onomatopéias. Além disso, não eram todos os autores que se arriscavam a colocar balões em seus quadrinhos.
Com a entrada no século XX, o fenômeno das tiras tomou corpo e evoluiu rapidamente nos jornais americanos. Os dois principais jornais americanos da época, o New York World e o New York Journal, em uma batalha comercial que se tornou célebre, tiveram profunda influência na evolução das tiras de jornal naquele momento. Bastou que o New York World se arriscasse a publicar um suplemento aos domingos, contendo tiras e pranchas de quadrinhos, para que o rival New York Journal também criasse o seu. A cada domingo, novos autores e personagens iam surgindo, e aqueles de qualidade duvidosa acabavam sendo rapidamente deixados de lado. Surgiriam assim grandes personagens, como Os Sobrinhos do Capitão (1897), de Rudolph Dirks, Mutt & Jeff (1908), de Bud Fisher, e Pafúncio (1912), de George McMannus. Tais histórias se tornariam conhecidas por todos. Com o passar das décadas, alcançarão o posto de grandes obras primas da HQ mundial. Os Sobrinhos do Capitão era a história de duas crianças pestinhas vivendo numa hipotética ilha caribenha, junto a seus familiares e outros personagens. Dentre os familiares, destacava-se a figura do Capitão, gordo bonachão e que vivia às voltas com a gota - doença etílica que, por vezes atacava, suas pernas. Já Mutt & Jeff era uma tira de situações urbanas, passada nas ruas de uma grande cidade. Os protagonistas que davam nome ao título eram dois simplórios vagabundos, amantes da vida fácil e das apostas. Como se vê, nos primeiros anos a temática dos quadrinhos americanos envolvia essencialmente personagens simples, atingindo consequentemente as classes mais baixas da população. Quando a população americana começou a enriquecer, os personagens também trilharam o mesmo caminho. Em Mutt & Jeff, por exemplo, o personagem Mutt, conhecido por suas bebedeiras, casa-se e abandona o álcool 2.
A briga editorial entre o dono do NY World, Joseph Pulitzer - que mais tarde emprestaria seu nome ao prêmio jornalístico - e o dono do NY Journal, William Randolph Hearst - que, por sua vez, serviria de modelo para o diretor de cinema Orson Welles criar a sua obra-prima em 1939, Cidadão Kane - gerou em 1909 uma batalha judicial pelos direitos de Katzenjammer Kids, publicado desde 1897 no Journal. Seu autor, Rudolph Dirks, recebera proposta melhor de Pulitzer e se mudara para o World, levando junto seus famosos personagens. Afrontado, Hearst acionou a justiça pedindo os direitos pela HQ. Resultado: a tira passou a ser desenhada simultaneamente por dois desenhistas diferentes, um em cada jornal!
Dirks foi obrigado, porém, a mudar o nome da história, que passou a se chamar Hans and Fritz - e, mais tarde, The Captain And the Kids 3. Já o Journal contratou Harold Knerr para continuar a desenhar a história - e que acabaria considerado por muitos um autor mais competente do que o próprio Dirks. Para que não se repetissem situações como esta, os jornais criaram os sindycates (agências), organizações que detinham os direitos das histórias que publicavam. Desta forma, se um autor, por exemplo, desistisse de desenhar determinada história, ou morresse, o sindycate poderia contratar outro para desenhar a mesma tira em seu lugar. Tal sistema se mostrou eficaz não só na hora de resolver problemas trabalhistas como aquele, mas também para distribuir as tiras para jornais diferentes. Assim, rapidamente as mais famosas tiras dos EUA passaram a ser publicadas não só nos maiores jornais de New York, mas também em todo o território, e também fora dele. A exportação das tiras e páginas de comics para o todo o mundo estava apenas começando.
Já na década de 1910, os diversos sindycates pertencentes aos principais jornais do país agenciavam e distribuíam as comics strips para todos os Estados Unidos. Os artistas eram as grandes estrelas dos jornais, recebiam bons salários e eram disputados por outros sindycates. Todos os dias, os jornais publicavam uma página inteira com tiras inéditas de diversos personagens.
Apesar de serem lidas por todos, pais e filhos, homens e mulheres, as tiras eram consideradas infantis naquela época. Aos domingos, a ‘moda’ iniciada pelos jornais de New York, de publicar um caderno inteiro contendo não só tiras, mas também belas páginas (muitas delas em cores) com os personagens de maior sucesso, havia pegado definitivamente. Estas páginas inteiras, ou pranchas, eram muito apreciadas pelos autores, que assim podiam fugir das limitações de espaço impostas pelas tirinhas, invariavelmente uma sequência de três ou quatro quadros. Assim, artistas como Winsor McKay, autor do maravilhoso Little Nemo (1905), podiam criar verdadeiras obras de arte aos domingos. Encorajados pelo espaço físico que tinham para desenhar, passaram a trabalhar mais os cenários e os ambientes por onde passeavam os personagens. George Herriman, por exemplo, o excêntrico autor da obra-prima Krazy Kat (1911), chegou ao absurdo de jamais repetir um mesmo cenário, desenhando a cada quadro uma paisagem surreal e diversa da anterior, por onde transitavam seus geniais e insólitos personagens. |
Primeira sequência de Yellow Kid (1895), de Richard Outcault.
O nome Yellow Kid (menino amarelo) não foi obra do autor, mas do acaso, devido a uma falha na impressão que resultou no amarelo da camisola do personagem. |
As décadas de 20 e 30 apresentaram constante crescimento na qualidade e na quantidade dentre os comics americanos. O início da década de 30 assistiu a uma explosão criativa talvez jamais repetida em toda a história da HQ. O tema deixou de ser somente o humor; os autores, talvez por exigência dos syndicates que os agenciavam, passaram a criar histórias que se prolongavam em capítulos, como numa novela: cada nova tira ou página era a continuação das anteriores. Tudo recheado por mundos fantásticos, personagens atléticos e mocinhas sedutoras. O herói estava definitivamente criado para os quadrinhos: surgem os futuristas Buck Rogers (1929), de Dick Calkins, e Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, os heróis das selvas Tarzan (1928), de Hal Foster, Jim das Selvas (1934), também de Raymond, e Fantasma (1936), de Lee Falk em parceria com Ray Moore, o elegante mágico Mandrake (1934), escrito por Falk e desenhado por Phil Davis, e o Principe Valente (1934), também de Foster.
É importante lembrar que a crise econômica iniciada em 1929 nos EUA gerou uma grande perda da auto-estima no cidadão americano. Os heróis criados a partir daí eram claramente uma tentativa de reerguer a moral abalada com a crise. O leitor se enxergava na pele daqueles heróis, para quem a vida era uma grande aventura com um final feliz: o vilão era liquidado e a mocinha, conquistada. Vilão e mocinha, a propósito, eram personagens bastante estereotipados nos comics americanos. O vilão era invariavelmente um estrangeiro - às vezes até extraterreno, como o maligno Ming, imperador de traços orientais derrotado por Flash Gordon. Já a mocinha era indefesa e incapaz de resolver seus constantes problemas. O problema dela era quase sempre o mesmo: como se livrar do vilão que queria se casar com ela.
Seguindo tais características, em 1938 foi publicado pela primeira vez um personagem de imediato e enorme sucesso: o Superman, de Joe Shuster e Jerry Siegel. Vindo de outro planeta, e adotado quando bebê por uma família interiorana, Clark Kent, dono de diversos super-poderes, se tornaria o Superman, destinado a salvar pessoas inocentes do mal e dos criminosos. Não bastasse o fato de que era o maior de todos os heróis - um super herói - tal personagem trouxe uma importante contribuição para a evolução das HQ: pela primeira vez desde os álbuns europeus de Töpffer e Wilhelm Busch, o autor reutilizava o formato de história longa. É que o Superman, que saía na revista mensal Action Comics, publicada ainda hoje pela DC, trazia histórias de oito páginas, diferentemente das tiras diárias e páginas dominicais a que o público estava acostumado a ler nos jornais. Tal formato permitia a utilização de desenhos grandes, ocupando quase toda a página, além de dar uma agilidade maior à narrativa. Além disso, o fato de o personagem sobrevoar a cidade e aterrisar em arranha-céus dará nova dinâmica aos desenhos. Siegel, o desenhista, sabiamente desenhava ângulos diferentes de tudo o que o mundo dos quadrinhos estava habituado.
O público aprovaria o novo formato. Pouco a pouco, foram surgindo personagens e histórias no formato de histórias longas. A principal delas seria The Spirit (1940), de Will Eisner, que trazia aventuras semanais de sete páginas. Eisner inovaria bastante a maneira de escrever e desenhar uma HQ, achatando ou alongando os quadros como lhe convinha e apresentando cada história com um título desenhado de forma diferente. Além disso, seus enquadramentos fugiam da clássica ‘cena de teatro’, em que os personagens pareciam estar num palco representando. Os ângulos eram distorcidos e as ‘tomadas de cena’ variavam com uma incrível constância a cada quadro. As histórias de Spirit, que deveriam ser sátiras de personagens super-heróicos como o próprio Superman, se transformariam em algo maior do que isso, mesclando harmoniosamente aventura policial, ficção científica, humor, crítica social e até clássicos da literatura. Tudo num estilo de desenho muito caricatural, com personagens beirando o humor e abusando das sombras e do alto-contraste. Com o novo estilo, Eisner se tornaria uma das maiores referências para os quadrinistas em todo o mundo, influenciando de forma contundente inclusive o cinema dos anos 40-50.
Apesar da grande força das tiras e páginas de jornal, as revistas em quadrinhos já eram bastante populares na década de 40. Com a entrada dos americanos na Segunda Guerra, em 1942, aqueles velhos estereótipos de herói, vilão e mocinha das HQ americanas mudam um pouco de rumo. Surgem heróis bélicos, como o Capitão América, de Joe Simon e Jack Kirby. Os inimigos passam a ser nazistas e japoneses, retratados de forma ofensiva e muitas vezes racista. Com a grande mobilização para promover a entrada americana na guerra, os quadrinhos, principalmente os de super-heróis, já bastante difundidos, se transformam em panfletos importantes neste processo. Desde então, os comics são usados de forma eficaz para incentivar e ‘explicar’ ao grande público uma posição política ou ideológica dos Estados Unidos: seja para os próprios americanos, seja para o resto do mundo. Assim, por exemplo, os quadrinhos de Walt Disney, como o Pato Donald e o camundongo Mickey Mouse, serviram, durante as décadas de 50 e 60, para ‘justificar’ veladamente as ações políticas e militares dos americanos na Ásia e na América do Sul contra o avanço do comunismo nestes continentes. Eram os quadrinhos sendo usados em prol da ‘Guerra Fria’, que dividia o mundo em comunistas e capitalistas 4.
Tecnicamente, os quadrinhos americanos também sofreram mudanças. Já na metade da década de 40, após o término da guerra, as revistas eram muito populares, alcançando grandes vendagens. Diversos títulos mensais eram publicados - alguns com enorme sucesso. Bom exemplo é Detective Comics, a revista que em 1939 lançou a série Batman, criação de Bob Kane e depois imortalizada por outro autor, Jerry Robinson. A HQ se subdividia em diferentes formatos: aquele feito para os jornais, em tiras ou em páginas dominicais e que geralmente era uma história em continuação, e aquele feito para as revistas, de ação contínua e auto-conclusiva. Para o segundo formato, os autores geralmente se reuniam em estúdios de produção, já que o trabalho em conjunto gerava resultados mais rápidos. As histórias longas exigiam maiores cuidados e mais tempo de trabalho 5.
O trabalho em equipe se estabeleceu definitivamente no final dos anos 40, com o surgimento de diversas editoras que publicavam títulos de guerra, aventura, terror, policial e, principalmente, de super-heróis. Estes títulos eram totalmente produzidos pelos estúdios de desenhistas, através de uma verdadeira linha de montagem: um escrevia as histórias, outro desenhava os esboços a lápis, um terceiro fazia a arte final, outro colocava os textos nos balões, e assim por diante. A “linha de produção” persiste até hoje nos chamados quadrinhos comerciais, como os de super-heróis. Se o método beneficiou a proliferação das revistas em quadrinhos por todo o mundo, acabaria gerando um problema: a queda na qualidade autoral das histórias. Até o momento em que as HQ eram obra de uma só pessoa, ou no máximo duas, sobressaíam quase sempre o estilo e a criatividade singulares de cada autor. Com o desenvolvimento do trabalho por equipe, dezenas de novas páginas eram produzidas diariamente por diversas mãos que trabalhavam juntas. Assim, a exclusividade de um estilo se perdia. O próprio jeito de desenhar o corpo humano dos personagens passou a ser uniformizado, para que se facilitasse sua reprodução por autores diferentes. O quadrinho perdia assim seu valor autoral, e passava a ter um valor mais comercial. A lógica é simples: os autores de um personagem passam, se aposentam. Mas o personagem persiste.
Nos jornais, por outro lado, tiras e páginas dominicais continuaram a apresentar as mesmas características do início do século: os autores, salvo exceções, produzindo suas tiras e páginas sozinhos. Alex Raymond, por exemplo, criava tiras diárias e páginas semanais de diversos personagens. É verdade que para desenhar Flash Gordon, Agente X9 (abandonado já em 1935, um ano após ter sido criado) e Jim das Selvas, Raymond contava com assistentes que ajudavam-no, e às vezes até o substituíam. Mas era uma relação direta entre o autor e seu assistente. Este trabalhava mais como um aprendiz do que um mero repetidor dos traços de seu mestre. Após a morte de Raymond, em 1956, seu assistente Jonh Prentice o substituiu com as tiras diárias de Nick Holmes, criado em 1946. Prentice renovou e criou grandes aventuras do personagem, que não perdeu suas características.
A década de 50 trouxe boas novidades em tiras e páginas nos jornais americanos - e posteriormente de todo o mundo. As principais foram Charlie Brown (Peanuts), de Charles M. Schulz, e Recruta Zero, de Mort Walker. Ambas surgiram em 1950 e alcançariam um nível de reconhecimento mundial jamais provado por qualquer outra história em quadrinhos até então. Estava se consolidando a era do merchandising nos comics. A imagem dos personagens de Peanuts foi explorada em desenhos animados, bonecos plásticos, roupas, utensílios domésticos, álbuns de figurinha, cartões de natal etc. Tudo sob o controle da United Features Syndicate, a agência de comics pela qual Schulz - morto em 2002 - era contratado. Desde então, a maioria dos personagens de quadrinhos americanos tem suas imagens usadas para vender produtos por todo o mundo. Alguns autores, porém, como Bill Watterson, criador de Calvin e Haroldo (1986), se recusaram a ceder os direitos de seus personagens ao merchandising. Watterson teve sérios problemas com isto, o que acabou por levá-lo a extinguir o personagem em 1996 6.
Já as revistas em quadrinhos dos anos 50 apresentavam poucas novidades e muitas repetições, já que estava definitivamente estabelecida a “linha de produção”: fórmula dos quadrinhos produzidos a custo baixo, em grande quantidade e publicados em tiragens muito altas. Assim, os leitores se viam repletos de opções diárias nas bancas, embora nem todas - ou quase nenhuma - fossem de qualidade. Títulos como Weird Science, Frontline Combat e Tales from the Cript faziam a cabeça dos jovens leitores americanos no período. Quase todos apresentavam histórias que tinham sete ou oito páginas e sempre nos gêneros terror, ficção científica, guerra e super-heróis. Estas histórias poderiam ser equiparadas aos trash movies do cinema atual: recheadas de sangue, mortes trágicas e desprovidas de final feliz. Mas nem tudo era lixo. Grandes autores americanos tomariam parte na produção desses quadrinhos, como Jack Davis, Wallace Wood, Harvey Kurtzman, que anos antes fizera parte dos estúdios de Will Eisner, e Steve Ditko, que pouco depois ajudaria a criar o famoso super-herói Homem Aranha. Grandes talentos da literatura fantástica, como Ray Bradbury, também tomavam parte nestas HQ, fazendo roteiros. Em 1956, o Senado americano, influenciado pelas idéias malucas de um sinistro psiquiatra chamado Dr. Frederick Wertham, aprovou uma lei que censurava situações de morte, sexo e sangue nas HQ. Dois anos antes, o Dr. Wertham havia publicado o livro Seduction of the Innocent (Sedução dos Inocentes), onde expunha os ‘efeitos nocivos’ que uma HQ poderia impor aos jovens, levando-os a ações corruptas e até ao suicídio. Após o decreto do Senado americano, cada HQ, antes de ser publicada, deveria ser aprovada pelo ‘código de ética para os quadrinhos’.
Com a nova lei, as editoras do gênero guerra, ficção científica, terror, erótico se viram obrigadas a mudar os rumos de suas publicações. Mudanças que trariam à tona dois fatos marcantes. Em primeiro lugar, a criação de um novo formato: os quadrinhos satíricos, encabeçados pela Mad, publicação que substituiu todas as antigas revistas da EC Comics, editora que tinha as melhores vendagens antes da lei. A Mad tinha grandes artistas, e apresentava sátiras cruéis de filmes, costumes e tradições americanas. Não era feita só de quadrinhos: trazia textos e ‘reportagens’ sarcásticas, além de charges e posters. Ao mesclar textos em meio aos quadrinhos, artifício criado pelo editor Bill Gaines, a revista parou de ser controlada pelo código de ética: afinal, o código valia somente para revistas em quadrinhos, e não para revistas de variedades, como era o caso da Mad. O formato Mad faria história, influenciando autores e publicações pelo mundo afora ao longo dos anos. A revista seria a vitrine para o trabalho de grandes artistas: Jack Davis, Bill Elder, Harvey Kurtzman, Wallace Wood, Sérgio Aragonés, Don Martin, Al Jaffee 8
A segunda grande mudança resultante da proibição às HQ de horror, sexo e ficção científica foi a consolidação das revistas de super-heróis: o bom-mocismo de seus personagens não oferecia maiores problemas ‘éticos’. A DC Comics, editora detentora dos direitos de personagens como Superman, Batman e outros menos ilustres, como Flash e Lanterna Verde, foi quem reabriu o filão, relançando seus antigos personagens de forma jovial e revigorada. A DC Comics seria seguida pela criação, em 1962, do estúdio Marvel Comics, encabeçado pelo jovem roteirista Stan Lee e pelo experiente desenhista Jack Kirby. Velho conhecido no mundo dos quadrinhos, na ativa desde a década de 30, Kirby era mais um remanescente dos estúdios de Will Eisner. A Marvel Comics faria história: o estúdio, que primeiro se chamou Atlas Studios, contribuiu para uma nova ploriferação de quadrinhos de super-heróis. Os principais personagens destes anos seriam todos criados pela dupla Lee-Kirby: Surfista Prateado, X-Men, Quarteto Fantástico, Thor, Homem de Ferro, Homem Aranha. A exemplo da DC, velhos personagens seriam ‘ressucitados’, como o Capitão América e o Tocha Humana. Kirby daria uma nova dinâmica às histórias, criando cenas espetaculares, que ocupavam páginas inteiras, e dando uma movimentação muito maior aos personagens no limitado espaço dos quadros. A popularização dos super-heróis acabaria transformando os personagens em algo mais importante do que os autores. Hoje, é muito comum os leitores comprarem revistas tendo preferência por determinados super-heróis, e não por seus autores. Além disso, as revistas em quadrinhos, pelo menos nos Estados Unidos, tornaram-se um ‘termômetro’ de personagens, que, se fazem sucesso, viram filmes de longa-metragem e produtos de supermercado.
A resposta a este tipo de quadrinhos surgiria no fim dos anos 60. Eram os anos ‘loucos’, quando aflorou a geração hippie e a contracultura, movimento que pregava o fim dos velhos conceitos, contra a vigente Guerra do Vietnã e a poluição ambiental, e a favor da liberdade de expressão. Nos quadri-nhos, os principais nomes deste movimento seriam Gilbert Shelton, Rich Corben e Robert Crumb. Os três criariam o quadrinho que ficou conhecido como underground. A Zap Comix, editada por Crumb a partir de 1969, pode ser considerada a primeira revista totalmente produzida pelo próprio autor das histórias. Hoje, estas revistas são conhecidas como ‘independentes’, e deram origem aos fanzines. O período dos underground coincidiu com um importante movimento em torno dos quadrinhos que começava a se formar na Europa, em especial na Itália, na França e na Espanha. Tal movimento privi-legiava os quadrinhos como forma de expressão e obra de arte, que deixava de ser visto como mero passatempo juvenil.
Surgem assim autores que passam muito tempo criando suas ‘obras-primas’, que começam a ser publicadas não em revistas ou em jornais, mas em álbuns luxuosos e coloridos, de capa dura e papel de alta qualidade. Os autores que privilegiam este tipo de quadrinho existem até hoje, em todo o mundo, e fazem o que ficou conhecido como ‘quadrinho de autor’, em contraposição ao ‘quadri-nho comercial’, que, como já dissemos, tem o personagem, e não o seu criador, como peça principal das histórias. Atualmente, dentre os grandes nomes do quadrinho de autor, existem alguns que iniciaram suas carreiras fazendo trabalhos para as grandes editoras comerciais, como Dave Mazzuchelli, que já desenhou aventuras do Batman e hoje tem editora própria. Outros, ao contrário, apesar de terem se tornado famosos por seus trabalhos autorais, resistiram e jamais quiseram ver seus nomes vinculados aos quadrinhos comerciais, como os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, criadores das belíssimas aventuras Love & Rockets e Crônicas de Palomar, respectivamente. Love & Rockets é a história de duas amigas hispano-americanas, que vivem em San Francisco e levam uma vida bem excêntrica. Envolvem-se com outras jovens, vagabundos, grupos de rock e punk, dentre outros, além de, ocasionalmente, serem namoradas... Já Crônicas de Palomar se passa em uma fictícia cidadezinha de algum país da América Latina. Lá, uma profusão de personagens convivem com seus dramas, tragédias e alegrias, em um estilo que, na literatura, é chamado de “realismo fantástico”.
Não podemos deixar de assinalar dois nomes que jamais abandonaram suas convicções nem se renderam ao quadrinho comercial. Os já citados Robert Crumb, um dos grandes desenhistas ainda nos dias de hoje, e Will Eisner. Hoje com mais de 90 anos, Eisner há muito abandonou sua antiga criação, o Spirit, e passou a criar desde então belíssimas e consistentes histórias consideradas ‘de autor’, de temática urbana e tratando da condição humana. Suas obras O Edifício e New York - A Grande Cidade, estão com certeza entre as maiores realizações do século XX no campo das histórias em quadrinhos.
Apesar do rolo compressor da indústria do quadrinho comercial, os americanos, ao menos desde a década de 80, têm apresentado boas opções de comics autorais: a Fantagraphics, editora que cresceu com o sucesso dos irmãos Hernandez, é hoje uma das maiores editoras do país e pode ser considerada de quadrinho alternativo. Gaba-se, ainda, de ter entre suas estrelas Peter Bagge [146], considerado por muitos o grande crítico do ‘american way of life’ com a revista Hate, toda produzida por ele. A editora publica ainda o trabalho de Joe Sacco, que tem revolucionado o modo de fazer quadrinhos com suas histórias-reportagem sobre os conflitos na Iugoslávia e na Bósnia, além da imponente graphic novel Palestina, em que faz um relato contundente, intimista e inédito sobre a relação entre israelenses e palestinos. Infelizmente, a Fantagraphics passa atualmente por dificuldades financeiras.
Entre os autores de quadrinho comercial, podemos dizer que, criativamente, a situação se estacionou desde o fim dos anos 80. Naquela década, surgiram autores que inovaram bastante a forma das histórias, que, embora de cunho comercial e devendo seguir exigências de mercado, passaram por uma renovação não vista desde os tempos de Jack Kirby, no início da década de 60. Artistas como Frank Miller, autor da mini-série Batman - O Cavaleiro das Trevas (1986), e John Byrne, que desde 1979 assumira os desenhos da série X-Men, da Marvel, desenvolveram ideologicamente a linguagem dos quadrinhos de super-herói, que foram sempre vinculados ao público juvenil. Além disto, a linha que separava os quadrinhos ‘comercial’ e ‘autoral’ nunca se viu tão tênue quanto naquele período.
Nos anos 90, a crescente queda nas vendas das revistas das grandes editoras, especialmente da Marvel - que chegou a decretar falência em 1995 - gerou um retorno ao quadrinho estritamente comercial e feito de forma cada vez mais industrial, com as facilidades oferecidas pela computação gráfica. A qualidade e a criatividade sofreram um imediato baque, o que proporcionou o surgimento da editora Image, em 1994. A Image apareceu com novas propostas de super-heróis, não muito diferentes do trabalho que a Marvel e DC já estavam acostumadas a fazer há décadas. Porém com novidades de design e estilos de desenho um pouco mais próximos dos quadrinhos japoneses e da liberdade estilística européia, além de usar e abusar da computação gráfica. Se não trouxe grandes alterações de conteúdo, a Image pelo menos contribuiu para o fim da dualidade Marvel-DC, que vinha desde 1962. A Image abriu ainda caminho para o surgi-mento de outras editoras de menor expressão, como a Malibu e a Dark Horse.
O quadrinho comercial americano, apesar das constantes repetições (afinal o lema do mercado sempre foi vender muito para continuar vendendo) nos deu boas surpresas durante os últimos anos. A começar pela estontante série Sin City (1994), de Frank Miller, que explora o preto-e-branco de forma bastante ousada, passando pelas aventuras da Vertigo, uma subdivisão da DC, cujo principal personagem, Jonh Constantine, marcou época quando escrito por Alan Moore, até chegar à contundente e mordaz mini-série Liga Extraordinária, de autoria da dupla inglesa Alan Moore e Kevin O’Neill.
Que conclusão podemos tirar após tanta espe-culação sobre esta arte ainda pouco discutida - embora bastante ‘discutível’? Em primeiro lugar, que os quadrinhos apresentam um formato muito variado e às vezes indefinido. O que os caracteriza como forma de comunicação é a utilização de imagens divididas em quadros para criar a ilusão de movimento e contar uma história. Tomando por base somente tal definição, constata-se que uma história em quadrinhos não precisa estar impressa em papel. Pode estar numa parede, em forma de cartaz, outdoor, ou na tela de um computador. Também descarta-se a hipótese de que a HQ só se caracteriza como tal se estiver fazendo uso de balões: se assim fosse, obras primas como Príncipe Valente, de Harold Foster, ou a recente série The System (1994), de Peter Kuper, não poderiam ser consideradas HQ, somente pelo fato de que seus autores não sentiram a necessidade de utilizar balões ao longo das sequências.
As histórias em quadrinhos são o mais universal dos meios de comunicação, não necessitando de um alfabeto específico para serem compreendidas. Vamos mais longe: são, em si, um alfabeto. Dessa forma, os quadrinhos atravessaram o século XX apresentando ao mundo recursos avançados de linguagem e de comunicação global: vários personagens se tornaram ícones de várias gerações, reco-nhecidos por crianças, jovens e velhos. Ao longo do século XX, os quadrinhos ajudaram a fixar opiniões e tendências e até contribuíram com o avanço tecnológico - como a pistola de impulso anti-gravitacional, criada por Alex Raymond em 1934 e que foi realmente testada pela NASA 9. Se o reconhecimento ao gênero não foi ainda dado, isto se deve ao puro preconceito ou à falta de informação. Desinfomação explicável, já que os quadrinhos são ainda uma novidade se comparados com a literatura, por exemplo. Os quadrinhos ainda ‘engatinham’ e terão tempo para ganhar o devido reconhecimento. Uma arte que, para ser realizada, custa pouco: afinal, basta algum material de desenho e uma mente criativa para que uma folha de papel torne-se palco de grandiosas aventuras, e assistimos então ao nascimento e à morte de mundos inteiros, fabulosos ou não, de intrincadas tramas amorosas e coloridas conquistas espaciais.
Não por acaso, o cinema adora a história em quadrinhos. Muitas vezes influenciado por ela, toma de empréstimo seus principais personagens com uma freqüência cada vez mais acentuada. Uma arte não menos maravi-lhosa, o cinema no entanto é muito mais caro, exigindo cenários tridimensionais, figurinos, sofisticados equipamentos e a participação de muita gente, entre atores, câmeras, produtores. Assim, esperamos que, com o inevitável desenvolvimento das técnicas digitais e sua utilização na animação, nos games e no próprio cinema, a história em quadrinhos não morra: pelo contrário, esperamos que, assim como aconteceu com a literatura, a história em quadrinhos seja cada vez mais respeitada e apreciada por aquilo que ela é: um apaixonante registro visual da capacidade humana de imaginar.
4 O. Masotta, La historieta en el mundo moderno, 1991, p. 89 a 91.
5 Ibid., p. 78 a 84.
6 B. Watterson, 10 anos de Calvin & Haroldo. 1996, p. 84.
7 A. e E. Clark, op. cit. p. 72 a 75.
8 Ibid.
9 M. A. Ribeiro, As Neovanguardas: Belo Horizonte - anos 60, 1984, p.42 a 47. |
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Quadro de Príncipe Valente em seu ano de estréia (1936). Seu autor, Hal Foster, mantinha uma linha cronológica para a aventura: o personagem casa-se, tem filhos e envelhece. Misturando realidade histórica (fatos e costumes do mundo medieval) com fantasia (dragões, a Távola redonda e seus cavalheiros), a história primava pelo complexo cuidado gráfico de seu autor.
Príncipe Valente (Prince Valiant), de Harold Foster. De: Editora Brasil América S.A., 1990.

The Spirit (1940), de Will Eisner, sofre com o assédio feminino: retrato perfeito do anti-herói, Spirit não tinha super poderes, apenas senso de humor e ironia. Além disso, as histórias, semanais e com sete páginas cada, revolucionaram o formato da HQ americana durante a década de 40. A história durou até 1952.
The Spirit, de Will Eisner. De: Editora Abril Jovem S.A., 1990.
Capitão América, de Jack Kirby: precursor dos heróis patrióticos, o personagem apoiou o exército americano na II Guerra.
Capitão América (Captain America), de Stan Lee e Jack Kirby. De: Editora Brasil América, 1972

Edição da Mad americana. Publicada ainda hoje, a Mad passou incólume pelo código de etica americano simplesmente por não ter sido considerada uma revista de quadrinhos. Acabou se tornando a principal publicação
da editora EC Comics.
Capa da revista MAD, 1978 – publicada nos Estados Unidos pela E.C. Publications, Inc.
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Calvin e Haroldo, de Bill Watterson
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